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		<title>Parte VI &#8211; Um soco desproporcional</title>
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		<pubDate>Thu, 05 Nov 2009 18:32:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Matte</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uma história sem importância]]></category>

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		<description><![CDATA[Janjão Uxôa bateu com os nós dos dedos na porta número quatro, segundo andar, e ficou aguardando a reposta. Como permanecesse fechada, bateu novamente, desta vez com mais força, e soltou um imperativo gutural para reforçar o aviso:
- Abra a porta! Polícia!
Lá dentro, Osmar Galeguinho hesitava, e o nervosismo impedia um raciocínio adequado &#8211; várias [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=omatte.wordpress.com&blog=1141163&post=141&subd=omatte&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p>Janjão Uxôa bateu com os nós dos dedos na porta número quatro, segundo andar, e ficou aguardando a reposta. Como permanecesse fechada, bateu novamente, desta vez com mais força, e soltou um imperativo gutural para reforçar o aviso:</p>
<p>- Abra a porta! Polícia!</p>
<p>Lá dentro, Osmar Galeguinho hesitava, e o nervosismo impedia um raciocínio adequado &#8211; várias idéias ocorriam-lhe ao mesmo tempo, mas não conseguia decidir pelo próprio futuro: por vezes, encarava a janela aberta e imaginava pular, correr pela tarde fria em direção ao matagal e lá se esconder &#8211; depois, roubaria um cavalo e fugiria para a Argentina; em outras, caminhava em direção à porta, decidido a abri-la, para encarar de uma vez suas responsabilidades. As batidas se repetiram. Suou frio. Bem, talvez fosse um simples engano. Se fugisse, estaria escancarando sua culpa.</p>
<p>- Abra a porta! Abra a porta!</p>
<p>Galeguinho abriu a porta devagar, deixando apenas o rosto aparecer na fresta, e encenou uma cara de sono.</p>
<p>- Polícia! &#8211; disse Janjão Uxôa imediatamente, com brutalidade, empurrando a porta e forçando a entrada no quarto. Quero ter com você.</p>
<p>- À vontade, respondeu o outro, recuando. Mas, sinceramente, não imagino o que possa te trazer aqui com tamanha urgência&#8230;</p>
<p>- Escute &#8211; interrompeu Janjão, batendo com o indicador em seu peito &#8211; não estou para muito papo. Vamos acabar logo isso aqui. Vou te levar para a delegacia, e é melhor ter uma boa história, se quiser livrar o couro. Venha comigo.</p>
<p>- Mas, mas&#8230; qual é a acusação?</p>
<p>Uxôa calou e aproximou-se com passos violentos, forçando o outro a recuar até um canto. Era um homem enorme, Janjão Uxôa, com o rosto possuído por uma carranca demoníaca, que sempre estava lá estampada. Talvez por este motivo fosse o capanga preferido do delegado Jalus. E, quando falava, sem brincadeira!, intimidava até os colhões mais avantajados, e fazia muitos molharem as calças apenas com ameaças.</p>
<p>Galeguinho estava assustado, encolhido no chão a um canto, prensado à parede pelo homem enorme. Recebeu uma cusparada na cara quando Janjão pegou-lhe pelos cabelos e falou muito alto e com fúria:</p>
<p>- Não vou repetir! O delegado quer te ver, e você sabe os motivos! Agora levante, como homem, e venha comigo.</p>
<p>Galeguinho estava aterrorizado. Desde que chegara ao vilarejo, ouvira várias histórias sobre o que acontecia naquela prisão. &#8220;E se for tudo verdade?&#8221; Medo, muito medo de Uxôa, e mais medo ainda da idéia de acabar entre as grades, &#8220;preso para sempre, assustado como rato, um brinquedo para satisfazer a insanidade de uns brutos, raios me partam! Só um ladrão de galinhas, só um ladrão de galinhas!&#8221;. Uxôa agarrou-lhe o pulso, e começou a escoltá-lo para fora. Ia dizendo que &#8220;a vida, neste lugar, não é fácil para gente mal intencionada&#8221;, e que &#8220;devia ter pensado melhor antes de provocar os incêndios&#8221;.</p>
<p>- Incêndios? Como.. Incêndios? Não fui eu. Espere, Uxôa, não tenho nada a ver com os incêndios. N..não fui eu!</p>
<p>- Quieto &#8211; advertiu o capanga, puxando Galeguinho com mais força.</p>
<p>E a morte acariciava-lhe o rosto, admirando com olhos de abismo o terror nas idéias desta próxima vítima. Era gelado. Galeguinho sabia que os colonos estavam descontrolados e, quando botassem as mãos no incendiário desconhecido, certamente lhe dariam um trágico destino. Mas não era ele. Ele não! Todo o seu crime foi apenas roubar algumas galinhas, pra matar a fome sem precisar trabalhar. Nada de fogo, não foi sua culpa aquela destruição. Remoeu rapidamente essas imagens, mergulhando em um delírio gradual, e já estavam quase na porta quando a idéia de cair nas garras da turba enlouquecida fez com que o preso saísse completamente de si. Então, ensandecido, num ato de desespero, enfiou a mão livre no coldre do policial, e tentou sacar sua arma. Mas Janjão, muito rápido, virou-se com destreza e acertou-lhe um murro potente no meio da cara.</p>
<p>O corpo de Osmar Galeguinho rebateu pelos móveis do quarto, até cair, jazendo sem vida, próximo à janela, por onde, talvez, caso pulasse, teria alcançado um destino melhor.</p>
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		<title>Nota importante &#8211; Eu e o fantástico</title>
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		<pubDate>Mon, 17 Aug 2009 07:20:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Matte</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uma história sem importância]]></category>

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Esta história tomará novo rumo daqui para frente. Retrocederemos (eu e mais quem?) alguns 50 anos no tempo, até uma época em que Chapecó pouco mais era que uma pequena cidade de colonos gaúchos com ascendência italiana ou alemã; uma terra com pouca ou nenhuma lei, de difícil acesso, e com notável fama de paragem [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=omatte.wordpress.com&blog=1141163&post=138&subd=omatte&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><span lang="EN"></p>
<p align="justify">Esta história tomará novo rumo daqui para frente. Retrocederemos (eu e mais quem?) alguns 50 anos no tempo, até uma época em que Chapecó pouco mais era que uma pequena cidade de colonos gaúchos com ascendência italiana ou alemã; uma terra com pouca ou nenhuma lei, de difícil acesso, e com notável fama de paragem hostil. Mas, antes de continuar, pretendo registrar estes pensamentos que vieram-me à cabeça durante a madrugada, enquanto tentava dormir.</p>
<p align="justify">Parando para revisar o passado de meu gosto artístico, acabei por descobrir muita coisa a respeito da natureza de minhas preferências, e percebo que as leituras que fiz explicam muito mais sobre minha vida e personalidade do que eu mesmo poderia imaginar. A mim está claro sempre ter priorizado o aventuresco fantástico ao realista contido; o inesperado ao cotidiano enfadonho; os versos do desconhecido à meras descrições do habitual. Mas, sinceramente, nunca havia reparado em o quanto isto tudo me intriga &#8211; pois que sim!, algo nisto muito me intriga &#8211; sempre, sempre me intrigou &#8211; algo de sublime revelado pela incursão do homem em lugares desconhecidos. Então, entre histórias de faroeste, contos de piratas ou desbravadores ultramarinos, e até, quando possível, imaginações a respeito da colonização espacial (talvez, quem duvida, o próximo passo da humanidade curiosa e aventureira), fui construindo meu próprio cânone de leituras, que transformavam um pouco a impressão tediosa que sempre tive: desta época, deste mundo, deste lugar.</p>
<p align="justify">O fato é que me sinto um tanto injustiçado por ter nascido nestes tempos de comodidades, quando quase todos os cantos deste planeta já foram palmilhados por olhos humanos, ou por lentes de satélites &#8211; e os que não foram, com certeza, é por estarem muito bem escondidos no subterrâneo. Sobrevêm a isto uma eterna sensação monotonia, de marasmo, um tédio completo e impossível de reverter. É como não existisse outra opção, a não ser continuar vivendo no meio desta civilização doente. É como se não houvesse um lugar para onde fugir.</p>
<p align="justify">Assim, desde criança, esforço-me ao máximo na tentativa de projetar minha mente ao corpo de criaturas como Ulisses, Hernan Cortez, Cristóvão Colombo, Fernão de Magalhães, James Cook, Edward Teach, Sir. Francis Drake, Robinson Crusoé, Conan da Ciméria, Bilbo Bolseiro, Meriwether Lewis e seu companheiro William Clark, Billy the Kid, Tenente Blueberry, Ken Parker, Phileas Fogg, Long John Silver, Allan Quatermain, Luis Carlos Prestes, Ernesto Guevara, Alexander Supertramp, Perry Rhodan &#8211; aventureiros que, de carne ou de papel, fascinaram a mim e à humanidade com as histórias de seus feitos maravilhosos e mergulhos ao desconhecido. Queria poder ver o mundo com seus olhos fascinados, poder com eles desbravar a natureza selvagem, inserir-me em lugares desconhecidos, viver o dia de hoje sem saber ou importar-me com o lugar onde estaria amanhã &#8211; expor-me, enfim, de peito nu às mais sérias reviravoltas do destino. Fui, desta forma, um garotinho que salvou donzelas presas na torre mais alta do castelo sombrio, um adolescente que duelou com revólveres ao pôr do sol, que atravessou o atlântico em uma fragata e morou por muitos anos sozinho em uma ilha deserta; fui um jovem que pisou na lua e conheceu planetas distantes, que escondeu-se, num porão, dos alienígenas que invadiam a terra; e assim, somente assim, consegui superar as 4 paredes que circundavam meu quarto &#8211; meu habitat imutável, sempre, sempre igual.</p>
<p align="justify">Até tentei, durante uma época, encontrar aventura nas ruas, entre bebedeiras e amizades malucas. Mas nada, simplesmente NADA, acontecia. Então, a vida pareceu perder toda a graça&#8230; e precisei, feliz ou infelizmente, recorrer ao meu antigo, velho refúgio. Sim, é um pouco estranho, eu sei, um homem com a minha idade continuar cultivando estes gêneros, e, volta e meia, realmente me sinto um pouco infantil. Há, certamente, nos dias de hoje, um grande preconceito em relação ao fantástico &#8211; parece-me que os círculos intelectuais estão preocupados demais tentando explicar os dramas existenciais, estão todos muito absortos em buscas filosóficas introspectivas e por demais profundas. Compreendo que talvez esta coisa misteriosa, o dito &#8220;ser&#8221;, seja o lugar desconhecido que o homem de hoje deve tentar desbravar, porque não? De minha parte, passei longo período &#8211; longo, longo mesmo &#8211; tentando descobrir os detalhes do meu &#8220;eu&#8221;, mas, sinceramente, não gostei nada das monstruosidades que vi! E, que tristeza, não posso matar meus demônios com um tiro de pistola ou um golpe de espada certeiro, não posso fugir deles esporeando um cavalo ou içando velas a bombordo, simplesmente NÃO POSSO!</p>
<p align="justify">Mas há um jeito de subjugá-los, apenas um jeito: escrever.</p>
<p align="justify">Tenho um grande amigo que costuma dizer: &#8220;as pessoas procuram motivos para escrever. Eu, simplesmente, escrevo&#8221;. Ora, Rodrigo, vai-te à merda, rapaz. Antes de sentar e escrever, mesmo antes de abrir um livro, há um motivo &#8211; ou uma série deles, que leva o cara até ali. Acredito que o motivo de cada um é diferente, e o meu, provavelmente, nada mais deve ser do que uma ânsia em dividir com as pessoas o mundo tal qual estes olhos o vêem: aquilo que, para a maior parte dos homens, é talvez um simples edifício abandonado, na minha cabeça transforma-se em uma construção assustadora e demoníaca; um simples incêndio criminoso, para mim, pode esconder, e por que não, a tragédia de infâncias perdidas, homens cruéis com um passado difícil; e a história do linchamento de 4 indivíduos em praça pública, isto sim, isto meche com meus brios, de tal forma que tenho a necessidade de que o mundo inteiro saiba comigo os sentimentos de fantasia que estes eventos inspiram &#8211; eventos que ocorreram aqui, nesta terra esquecida, uma história trágica, intensa, que ilustra um lado da natureza humana que a civilização julgava esquecida desde os tempos da inquisição; uma história para a qual muito poucos parecem dar atenção.</p>
<p align="justify"> Esta é a história que eu pretendo contar, como uma brincadeira, um exercício, uma diversão.</p>
<p></span></p>
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		<title>Parte V &#8211; o louco mendigo</title>
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		<comments>http://omatte.wordpress.com/2009/08/11/parte-v-louco-mendigo/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 11 Aug 2009 23:03:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Matte</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uma história sem importância]]></category>

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		<description><![CDATA[Por entre as névoas que turvam a noite, surge um velho mendigo bêbado que vai falando sozinho. Seus assuntos são inaudíveis, e de pouco serviria proferir palavras inteligíveis, pois não há ninguém nas ruas para ouvir-lhe. O frio despenca impiedosamente sobre suas costas judiadas pelo peso de um saco que carrega, cheio de bugigangas &#8211; [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=omatte.wordpress.com&blog=1141163&post=134&subd=omatte&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p>Por entre as névoas que turvam a noite, surge um velho mendigo bêbado que vai falando sozinho. Seus assuntos são inaudíveis, e de pouco serviria proferir palavras inteligíveis, pois não há ninguém nas ruas para ouvir-lhe. O frio despenca impiedosamente sobre suas costas judiadas pelo peso de um saco que carrega, cheio de bugigangas &#8211; há muitos e muitos anos, o mesmo saco de estopa &#8211; e os poucos trapos sujos que veste não são suficientes para impedir um tremor gelado de chacoalhar-lhe as juntas, da mandíbula ao dedão do pé &#8211; que refresca-se ao relento, através de um grande furo no sapato. Mas o velho mendigo não se deixa abater.</p>
<p>Envolto em fumaça branca de vapores de água, na próxima esquina está edificado seu abrigo temporário, um velho moinho abandonado e que &#8211; na pior das hipóteses &#8211; poderia a qualquer momento desabar-lhe sobre a cabeça. Mas a vida, oras, rapaz, dizia o velho mendigo, a vida é um risco &#8211; e assim, nada há para temer. E repetia suas próprias palavras para a solidão da noite, nada a temer, rapaz, e que os raios me partam se amanhã, pelo menos, não arranjarei um belo jantar!</p>
<p>Assustou-se, no entanto, ao perceber que a porta de sua morada fora arrombada, e muitas coisas passaram-lhe pela cabeça: a polícia, talvez, ou quem sabe a porta despencou sozinha, pois bem, não seria impossível num lugar apodrecido como este! Mas o que mais lhe amedrontava era a idéia dos jovens skinheads que andavam linchando mendigos por aí, nesta cidade de coronéis onde alguns ainda ditavam as próprias leis. Que seja, não há o que temer! Nesta terra nasci, nesta terra cresci, dela fui embora e a ela retornei &#8211; pois que nela morrerei!</p>
<p>Determinado, então, foi entrando no velho moinho &#8211; e com muita facilidade caminhava lá dentro, pois já estava hospedado ali havia uma semana, e familiarizara-se com o local. Apesar disso, não era nenhum morcego para andar assim, no escuro, evitando qualquer esbarrão &#8211; quanto mais após um trago &#8211; e fez muito barulho no caminho. Quando ouviram os ruídos dos passos, cada fibra do corpo de Zé e Doug &#8211; que fumavam num canto em silêncio &#8211; retesou-se, e os dois ficaram morrendo de medo. O velho mendigo via a brasa do cigarro brilhando como um pequeno vaga-lumes na escuridão, lá perto de onde sempre acendia sua fogueira. Então, esbarrou em mais alguns tijolos, que fizeram um ruído horrível ao despencarem sobre o chão. Zé, tenso de pavor indescritível, encorajou-se e perguntou:</p>
<p>- Q&#8230; Quem vem lá?</p>
<p>- Oras &#8211; respondeu o mendigo com sua voz cavernosa e sinistra, prosseguindo em sua caminhada pelo escuro. Sinto cheiro de maconha em minha casa! Vou querer também!</p>
<p>- Quem vem lá? &#8211; repetiu Zé com voz firme, mas ainda temeroso.</p>
<p>- Meu amigo &#8211; foi dizendo o velho, esta é minha casa, e você está sentado perto do meu aquecedor! Ei, sobrou uma tragada pra mim?</p>
<p>- Afaste-se &#8211; tentou advertir Zé, tateando o chão em busca de sua lanterna. Estamos armados!</p>
<p>- Oras, pois que não tenho medo, sendo que a vida é um risco! &#8211; respondeu o mendigo, insanamente filosófico.</p>
<p>Doug estava quase morrendo de pavor. E a mão de Zé encontrou a lanterna no chão. Sacou-a e acendeu-a com velocidade desesperada, procurando o dono da voz que se lhes dirigia. E focou a luz bem no rosto do velho, que estava a alguns metros de distância. Sua barba branca e comprida &#8211; à semelhança dos cabelos grisalhos &#8211; brilhou na face amorenada de pó e fuligem. Levando a mão rapidamente ao rosto, e com a outra golpeando o ar na sua frente, o mendigo assumiu uma postura cômica, e assim lhes falou:</p>
<p>- Tira essa coisa da minha cara &#8211; e então, aproximando-se de Zé, pegou-lhe a lanterna das mãos &#8211; Vamos, me dá isso aqui.</p>
<p>Zé não reagiu. O mendigo desligou a lanterna e tudo voltou a ficar escuro. Então, ele perguntou:</p>
<p>- Sobrou uma tragada desse baseado pra mim?</p>
<p>- C..C..Claro! &#8211; respondeu Doug, entregando o cigarro ao velho amalucado.</p>
<p>- O que vocês vieram fazer na minha casa? &#8211; perguntou, começando a tragar.</p>
<p>- Ahn&#8230; &#8211; começou Zé, escolhendo as palavras, meio sem saber o que dizer &#8211; bem, a gente achou que&#8230;</p>
<p>- A gente não &#8211; interrompeu Doug &#8211; a idéia foi dele. Disse que queria sentir um &#8220;clima sombrio&#8221;&#8230;</p>
<p>O mendigo fez cara de entusiasmo.</p>
<p>- Clima sombrio, hem &#8211; disse, arregalando os olhos. Vocês gostam de histórias sombrias? Pois que eu conheço uma ótima, um causo que passou-se aqui mesmo, nesta cidade.</p>
<p>Zé e Doug estavam congelados. Não movimentavam um músculo. Apenas ouviam. O mendigo continuou fumando o baseado, sozinho, esquecendo de passar aos outros dois &#8211; que, por sua vez, já haviam esquecido da maconha &#8211; e o fato de estarem muito chapados só lhes aumentava a sensação de terror que a situação inesperada inspirava.</p>
<p>- Ora, vamos &#8211; disse o velho de uma vez. Sentem-se aí que eu vou lhes contar a história.</p>
<p>Zé e Doug, um pouco a contragosto &#8211; mas também curiosos pela tal história, voltaram a sentar-se. Então, entre uma tragada e outra, com seus trejeitos e frases tresloucadas, o velho mendigo começou a falar.</p>
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		<title>Parte IV &#8211; Adentrando o Velho Moinho</title>
		<link>http://omatte.wordpress.com/2009/08/04/para-dentro-do-velho-moinho/</link>
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		<pubDate>Tue, 04 Aug 2009 02:50:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Matte</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uma história sem importância]]></category>

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		<description><![CDATA[ 
 - Tá, e nós vamos fumar isso aonde? &#8211; perguntou Doug.
Zé não respondeu. Parecia não estar ouvindo, enquanto olhava seriamente para o Moinho abandonado, na esquina aonde estavam parados.
- Zé? &#8211; continuou Doug, falando sozinho &#8211; Bem, acho que podemos fumar aqui mesmo. Com essa névoa, ninguém vai ver&#8230;
Mas, baixando o olhar no rosto do [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=omatte.wordpress.com&blog=1141163&post=127&subd=omatte&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><div><span lang="EN"> </span></div>
<div><span lang="EN"> </span><span lang="EN">- Tá, e nós vamos fumar isso aonde? &#8211; perguntou Doug.</span></div>
<p align="justify">Zé não respondeu. Parecia não estar ouvindo, enquanto olhava seriamente para o Moinho abandonado, na esquina aonde estavam parados.</p>
<p align="justify">- Zé? &#8211; continuou Doug, falando sozinho &#8211; Bem, acho que podemos fumar aqui mesmo. Com essa névoa, ninguém vai ver&#8230;</p>
<p align="justify">Mas, baixando o olhar no rosto do amigo, Zé rejeitou a proposta:</p>
<p align="justify">- Não, cara. Hoje, quero curtir um clima mais&#8230; sombrio.</p>
<p align="justify">- Clima sombrio? &#8211; estranhou Doug, que já estava com o baseado na boca, pronto para acender.</p>
<p align="justify">- É &#8211; foi a resposta. Quero uma coisa diferente &#8211; e, indicando o moinho com um meneio de cabeça, completou: Vamos entrar aí.</p>
<p align="justify">Doug soltou um riso abafado, daqueles que faz o ar sair com força pelas narinas. Então, riscou um fósforo, e ia acender o baseado, mas Zé assoprou e fez o palito apagar.</p>
<p align="justify">- Zé, você é maluco &#8211; argumentou Doug. Essa coisa vai desmoronar nas nossas cabeças. Além do mais, é escuro aí dentro.</p>
<p align="justify">Com um sorriso maroto, Zé tirou a mochila das costas e de lá sacou uma pequena lanterna, que ficara ali por acaso, após seu último acampamento. Na verdade, foi exatamente a consciência de trazer uma lanterna consigo o que amadureceu em sua cabeça a idéia de entrar naquele lugar abandonado, lar de morcegos, aranhas, musgos, lesmas, caracóis, e sabe-se lá que outras criaturas partidárias de umidade e escuro ao invés de estimulante luz solar. Empurrando com a mão direita, Zé tentou forçar a tosca porta de madeira que estancava o local, mas, como não cedia, logo começou a empurrar com o ombro, e depois com as costas &#8211; sem, no entanto, obter resultado. Doug, incrédulo, só observava, ainda com o baseado apagado no canto boca.</p>
<p align="justify">- Não vai ajudar? &#8211; perguntou Zé.</p>
<p align="justify">&#8220;Fala sério, então, este doido&#8221; &#8211; pensou Doug, e, aproximando-se da porta, derrubou-a com um belo coice. O estampido ecoou com força por entre as paredes da velha construção, e o tombo da porta fez a poeira levantar numa nuvem. Assim, após encarar o breu lá de dentro por um breve momento, Zé ligou a lanterna, adiantando-se ao amigo, e foi entrando na frente. A escuridão era tão densa que parecia palpável, os fachos de luz da lanterna agiam como facas luminosas sulcando o ar abafado e notavelmente pesado. Aonde incidiam, iluminavam restos de tijolos e tábuas, também algumas estruturas de metal. Quando mirou a lanterna no alto, assustou os morcegos, que iniciaram louca revoada. Então, desviou a lanterna, e os animais acalmaram-se em poucos instantes &#8211; o ruído de suas asas e seus sibilos agudos morrendo aos pouquinhos. Os dois, após o susto, continuaram adentrando vagarosamente na construção, envolvendo-se numa atmosfera sombria, com a respiração presa ao máximo &#8211; e todos os sentidos atentos ao menor sinal de movimento. Até que, num canto, perceberam os restos de uma fogueira.</p>
<p align="justify">- Vamos dar o fora! &#8211; disse Doug, assustado, dando meia-volta e puxando Zé pela manga. Tem gente morando aqui!</p>
<p align="justify">- Relaxa, Doug &#8211; respondeu Zé &#8211; Deve ser algum mendigo &#8211; e percorrendo a lanterna por todo o local, inquiriu ao escuro: &#8220;têm alguém aí?&#8221; Mas as palavras apenas ecoaram, sem resposta. &#8220;Têm alguém aí?&#8221;, repetiu, com mais força, mas, novamente, apenas o eco respondeu algo em troca.</p>
<p align="justify">Assim sendo, dirigiram-se cautelosamente &#8211; pois volta e meia os escombros pareciam ceder ao peso dos dois &#8211; até o local onde estavam os restos da fogueira, e ali ficaram sentados. Ouviam um pio de coruja ali perto. Com a lanterna, Zé tentava encontrá-la. Avistou, então, numa falha do telhado, de costas para a noite &#8211; e era uma bela coruja cinzenta.</p>
<p align="justify">- Já podemos fumar, agora? &#8211; perguntou Doug.</p>
<p align="justify">- Sim, maconheiro ansioso. Agora, vamos fumar.</p>
<p align="justify">- O clima está sombrio o suficiente para o senhor? &#8211; zombou Doug, com um riso de escárnio. E Zé riu:</p>
<p align="justify">- Hahaha! Muito sombrio!</p>
<p align="justify">Uma chama de fósforo brilhou na escuridão, e os dois, em silêncio, engoliam a fumaça doce.</p>
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		<title>Poesia</title>
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		<pubDate>Sat, 01 Aug 2009 16:53:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Matte</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[luz do banheiro queimada, dia agitado, cheiro de suor em minhas roupas e um bafo quente em meu tênis; puro cansaço, calos nos pés, dor de cabeça e vontade de usar o meu pênis. Que abobado!, trocadilhos tacanhos, sujo e esgotado que estou, preciso de um banho – conforto luxuoso que me concedo.
Deitar, acordar cedo.
Cemate
 [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=omatte.wordpress.com&blog=1141163&post=125&subd=omatte&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p>luz do banheiro queimada, dia agitado, cheiro de suor em minhas roupas e um bafo quente em meu tênis; puro cansaço, calos nos pés, dor de cabeça e vontade de usar o meu pênis. Que abobado!, trocadilhos tacanhos, sujo e esgotado que estou, preciso de um banho – conforto luxuoso que me concedo.<br />
Deitar, acordar cedo.</p>
<p><em>Cemate</em></p>
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	</item>
		<item>
		<title>Parte III &#8211; Bêbados na madrugada</title>
		<link>http://omatte.wordpress.com/2009/07/28/parte-iii-bebados-na-madrugada/</link>
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		<pubDate>Tue, 28 Jul 2009 18:48:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Matte</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uma história sem importância]]></category>

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		<description><![CDATA[ 
 Por entre as névoas que turvam a noite, caminham dois vultos que falam alto e riem. Cada qual com sua garrafa de vinho, volta e meia tropeçam em uma lajota solta no caminho &#8211; e é então que, sem aviso, um palavrão retumba com eco na madrugada. Um deles, de cabelos vermelhos e rosto sardento, [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=omatte.wordpress.com&blog=1141163&post=118&subd=omatte&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><div><span lang="EN"> </span></div>
<p> <span lang="EN">Por entre as névoas que turvam a noite, caminham dois vultos que falam alto e riem. Cada qual com sua garrafa de vinho, volta e meia tropeçam em uma lajota solta no caminho &#8211; e é então que, sem aviso, um palavrão retumba com eco na madrugada. Um deles, de cabelos vermelhos e rosto sardento, é Doug, cujas pernas finas esforçam-se em mover-lhe o corpo para frente &#8211; mas que, com a habilidade comprometida, cambaleiam, obrigando-lhe oras a escorar o corpo nos muros, outras a levá-lo de encontro ao amigo que caminha ao seu lado. Sua língua está um pouco grossa; a voz, animadamente alta, conta causos antigos.</span></p>
<p align="justify">- Ele olhou pra mim e disse: <em>some da minha frente! </em>Há, Há!<em> </em>Que otário! Estava se sentindo um machão&#8230;</p>
<p align="justify">Zé, quando ri da lembrança, trança as pernas de leve e esbarra no outro, apoiando-se em seu ombro para evitar uma queda. Nisto, deixa cair a garrafa que, vazia, se espatifa no chão. Aproveitando o contato com Doug para dar-lhe uma palmada nas costas, fala, com ar zombeteiro: <em>mas você estava com medo, que eu lembro! </em>E<em> </em>o amigo, em resposta, sorri:</p>
<p align="justify">- Sim&#8230; Mas ele não percebeu!</p>
<p align="justify">Ambos, então, gargalham ebriamente. O sorriso de Doug floresce sem timidez, esticando as bochechas rosadas por causa do frio &#8211; e assim é o sorriso de Doug, um sorriso pleno, que ilustra satisfação e autoconfiança, num rosto marcado pela aparência anglicana e por um certo charme inglês. Mas aquele que, conhecendo-o de maneira apenas superficial, julgá-lo arrogante (por conta de todo este aspecto esnobe e muito cheio de si), estará cometendo uma grande injustiça, pois, em seu íntimo, Doug é muito gentil, e pratica a generosidade. Deste outro rapaz, que caminha a seu lado e conhecemos por Zé, ainda pouco sabemos &#8211; e não muito hei de falar-lhes agora. Entretanto, percebam que a touca de lã permanece caída por sobre seus olhos, e as mãos enregeladas continuam enterradas no fundo dos bolsos do casaco &#8211; o que, por certo, facilita que perca o equilíbrio. Além do mais, posso afirmar-lhes com toda certeza de que, apesar dos risos momentâneos, a alma deste homem ainda está agitada &#8211; e o álcool, de maneira alguma, fez com que esquecesse dos tormentos indizíveis que perturbam seu ser. E é por isto que, escondidas nos bolsos do casaco, as unhas das mãos estão todas roídas; e é por isto que, agora, o riso em seu rosto morre devagar, e os lábios voltam a contrair-se em uma triste expressão de dor.</p>
<p align="justify">Percebendo as mudanças no amigo, Doug cessa também de sorrir &#8211; e ambos, assim, assumem uma postura pensativa, absorta. Zé, melancólico, remói suas angústias &#8211; que não sabe exatamente de onde vêm, mas cuja cura acredita já ter descoberto; e Doug, mais embriagado que o outro, deixa o álcool levar sua mente por várias idéias, por coisas que alimenta já há algum tempo &#8211; uma canção que pretende compor, ou a verdadeira mensagem de um filme a que assistiu na semana passada. E então, diminuindo o passo (como se ponderasse algo que ocupa toda a concentração), olhou fixo em Zé, pôs a mão em seu ombro, e falou:</p>
<p align="justify">- Escute, Zé. Você vai mesmo embora daqui? Quer dizer&#8230; no duro?</p>
<p align="justify">Zé tomou outro gole de vinho. Limpou, então, a boca com o braço, e pensou que sim, já era hora de partir, e que seria este, enfim, o paliativo para suas angústias.</p>
<p align="justify">- Vou &#8211; respondeu.</p>
<p align="justify">- É, compreendo &#8211; continuou Doug, apertando o passo novamente. Acho que você tem razão. Mas ainda não entendi: o que é que tu tanto procura, que não está aqui?</p>
<p align="justify">- Não sei &#8211; foi a resposta. Gozo artístico, gozo intelectual, talvez. Mas não sei, Doug. Realmente, não sei.</p>
<p align="justify">Doug entornou a garrafa e passou o último trago para Zé. Continuaram andando pelas ruas, que estavam desertas, muito provavelmente por causa do frio e da névoa adensando-se cada vez mais. A esta altura, o raio de visão era muito reduzido &#8211; conseguiam visualizar talvez 1 ou 2 metros na frente; ao longe, alguns cães ladravam na noite e, provavelmente, acima do nevoeiro, estivesse brilhando uma lua muito cheia e redonda; as horas avançavam na madrugada, e a cidade inteira dormia, aconchegada no conforto das sombras; as lâmpadas, penduradas nos postes, tentavam brilhar, mas eram sufocadas pelo poder da neblina, não provocando mais que pequenos círculos de luz na escuridão (em um dos postes, ouviram o barulho de faíscas, e observaram que algumas pequenas fagulhas brilharam no ar. De repente, um estouro, POU!, daí, o escuro completo. Orientaram-se, então, pelos círculos de luz que flutuavam alinhadamente sobre suas cabeças, mostrando o caminho da rua). Até que, sem cruzar viva alma, chegaram aonde queriam.</p>
<p>Envolto em fumaça branca de vapores de água, nesta esquina está edificado um velho moinho, testemunha forçada de eventos que marcaram a história da cidade &#8211; e esta, a imperdoável história, marcou-lhe em troca nas paredes puídas e nas vigas queimadas; nos escombros que soterram o piso, atirados ao chão; nas vidraças quebradas e cheias de pó, eternamente vigilantes, observando os transeuntes do lado de fora, na rua. E esta construção, surrada e vetusta, cercada de modernos edifícios que a todo momento florescem na próspera cidade, provoca uma impressão só não mais aterradora que os próprios eventos que as mesmas paredes, vidraças e vigas presenciaram, há quase 50 anos.</p>
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	</item>
		<item>
		<title>Parte II &#8211; Preciso sair daqui</title>
		<link>http://omatte.wordpress.com/2009/07/21/parte-ii-preciso-sair-daqui/</link>
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		<pubDate>Tue, 21 Jul 2009 18:44:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Matte</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uma história sem importância]]></category>

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		<description><![CDATA[Depois de alguns momentos contemplando as luzes dos postes e os rastros que deixavam na neblina, Zé ficou um pouco impaciente e quis consultar as horas. Buscou o celular no bolso da calça  &#8211; e viu que na tela piscava um aviso de uma mensagem ainda não lida. Era de um amigo com quem não [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=omatte.wordpress.com&blog=1141163&post=108&subd=omatte&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p>Depois de alguns momentos contemplando as luzes dos postes e os rastros que deixavam na neblina, Zé ficou um pouco impaciente e quis consultar as horas. Buscou o celular no bolso da calça  &#8211; e viu que na tela piscava um aviso de uma mensagem ainda não lida. Era de um amigo com quem não conversava há um bom tempo, dirigindo-se nestes termos: &#8220;preocupado com você. dias sumido. 21 horas, no desbravador. estarei lá. Doug&#8221;.</p>
<p>Espantado com tal coincidência, tentou responder ao amigo que não, não iria. Sua mensagem, entretanto, não foi enviada por falta de créditos. Havia uma grande amizade entre eles &#8211; ambos consideravam-se melhores amigos &#8211; e apesar disto nada a Zé motivava conversar com quem quer que fosse esta noite. Portanto, decidiu que iria deixar o outro esperando &#8211; depois, inventaria uma desculpa qualquer, o celular esteve sem bateria, não li sua mensagem em tempo!</p>
<p>Assim, quando preparava-se para sair e evitar o encontro, sentiu uma mão tocando-lhe o ombro, por trás.</p>
<p>- Mas que incrível! Você está adiantado!</p>
<p>Zé virou o pescoço e viu o rosto branco e sardento de Doug sorrir-lhe por entre longos cabelos vermelhos. Surpreso, mas contrariado, não devolveu o sorriso. Baixou o olhar para o chão, soltando uma saudação pouco amistosa.</p>
<p>- Oi, Doug.</p>
<p>Doug fez a volta no banco e sentou-se ao lado de Zé. Primeiro, ficou olhando o amigo &#8211; e este, encarando a calçada. <em>Sempre foi tão falador</em>, pensou Doug, <em>cheio de idéias e entusiasmado com elas. E isso agora, o que é? Este silêncio de morte, esta agonia no olhar&#8230; </em>Ao seu lado, no banco, sentava alguém cuja aparência realmente causava dó &#8211; e, por isto, Doug quis abordar os problemas, mas estava incerto sobre o que deveria dizer, quais palavras usar. Além do mais, Zé fora sempre expansivo, um sujeito de muitas falas e gestos, era estranho haver silêncio em sua companhia &#8211; estranho ter a obrigação de iniciar a conversa.<em> </em></p>
<p>- Achei que você não viria &#8211; começou Doug, finalmente.</p>
<p>- Eu n&#8230;</p>
<p>- Estou preocupado. Todos estamos.</p>
<p>Agora sim, Zé levantou o pescoço. Encarou o amigo profundamente. Bem dentro dos olhos.</p>
<p>- <em>Todos </em>estamos? &#8211; dito com força e destaque em cada sílaba, junto ao olhar invasor, acuaram Doug, que precisou desviar os olhos.</p>
<p>- Você tem amigos aqui, não sabe?</p>
<p>- Ora, Doug, não seja ridículo.</p>
<p>- Sei lá o que você entende por amigos, mas você os tem.</p>
<p>- Doug &#8211; interrompeu Zé com um gesto de desdém. Não sei o motivo desta conversa, mas ouça. Estou proibido de me relacionar com as poucas pessoas interessantes que ainda existem nesta cidade. Cada uma por um motivo mais estúpido que o outro.</p>
<p>- Tem a Júlia&#8230;.</p>
<p>- Está apaixonada por mim. Não quero nada com ela. Suas amigas acharam que deveria me afastar para que não sofresse.</p>
<p>- O André.</p>
<p>- Namorando uma ex-namorada, que me odeia.</p>
<p>- Jonas..</p>
<p>- Doug, Doug &#8211; interrompeu-o -, esqueça. As pessoas aqui são mesquinhas, os motivos que orientam suas atitudes são todos mesquinhos. Minha vida neste buraco acabou. Preciso sair daqui.</p>
<p>Doug não conseguiu esconder a tristeza que sentiu ao ouvir estas palavras do amigo. Julgou-as duras demais &#8211; tinha um íntimo sensível e orgulhoso, e quando ficava ofendido, reagia com um muxoxo emburrado.</p>
<p>- Escute, Doug, não me entenda mal &#8211; disse Zé, apoiando sua mão no ombro do outro. Gosto muito de você, é meu melhor amigo, é um cara que vale a pena. Mas isto não muda os fatos. Minha vida no interior acabou. Preciso encontrar desafios novos, vento novo no rosto. Quero conhecer gente nova! Ando pensando muito sobre isto, ultimamente.</p>
<p>Agora quem fitava o chão era Doug. Sua voz arrefeceu, e falou quase num sussurro:</p>
<p>- Não te iluda. Se as pessoas perderam a graça aqui, não terão graça em lugar nenhum. Isso está dentro de ti, cara. Vai levar contigo pra qualquer lugar onde for.</p>
<p>- Olhe, já conversamos sobre isso..</p>
<p>- Vai ver que estou certo.</p>
<p>- Ok. Ok. Vamos mudar de assunto. Esse papo está me chateando.</p>
<p>Doug se ofendeu novamente. Teve vontade de levantar e sair, deixar o amigo para trás, mas achava que ainda poderia ajudá-lo, que poderia dizer-lhe algo de muito profundo para lhe fazer refletir. Não queria abandoná-lo agora. Mesmo assim, a mágoa provocada em seu coração pelas últimas palavras ouvidas impedia que começasse a falar. Após um pouco de silêncio, foi Zé quem puxou novo assunto.</p>
<p>- Lembra, quando apanhamos da polícia? Foi aqui.</p>
<p>- Haha! &#8211; animou-se. Essa é uma das histórias mais loucas que restaram-me para contar. <em>Levanta os braços, vagabundo!</em></p>
<p>Ambos riram juntos por um tempo.  E entre os risos que iam-se abafando, Zé comentou baixinho, <em>eles tiveram motivo</em>, como se apenas pensasse em voz alta.</p>
<p>- Tiveram motivo? &#8211; redargüiu Doug, contrariado. Como assim?</p>
<p>- Doug&#8230; estávamos pichando o &#8220;Desbravador&#8221;. É o monumento central da cidade, símbolo deste lugar. Esperava que reagissem como?</p>
<p>- Ora, Zé, eles <em>praticamente</em> espancaram 4 adolescentes!</p>
<p>Zé ficou em silêncio, cofiando a barba, pensativo. O nevoeiro engrossava cada vez mais, poucas pessoas andavam pelas ruas. A intervalos espaçados, faróis cortavam as névoas, a custa de muito esforço. Nesse momento, já estava difícil de enchergar alguns metros na frente do nariz. Doug, um pouco tenso, aguardava que Zé continuasse o assunto. Então, parecendo despertar, ele respondeu:</p>
<p>- No fundo, acho que era isso o que procurávamos.</p>
<p>- O que, uma surra? &#8211; continuou Doug, de imediato. Besteira! Fale somente por ti. O que eu fiz foi por puro ódio&#8230; e por vontade de zombar desta porra.</p>
<p>- Vai começar?</p>
<p>- Sabe o que este amontoado de latas simboliza, hem? É uma homenagem aos &#8220;pioneiros&#8221;, destemidos matadores de índios&#8230;</p>
<p>- Doug, esse papo de novo não&#8230;</p>
<p>- &#8230;assassinos de caboclos&#8230;</p>
<p>- Doug&#8230;</p>
<p>- &#8230;uma homenagem à patrola do progresso, ao&#8230;</p>
<p>- CHEGA, SACO!</p>
<p>Doug parou de falar. Zé estava indignado.</p>
<p>- Sempre a mesma coisa! Sempre a mesma MERDA de história! Você nunca muda? Até quando vou ter que ouvir isso? Quanto tempo faz que eu te conheço? É o mesmo, o MESMO DISCURSO!</p>
<p>Disse o que disse num ímpeto, esbravejando feito trovão &#8211; fora de si, irreconhecível, mesmo para quem já lhe tinha visto em momentos de fúria. Cuspia enquanto falava. No fim da frase, respirou um pouco. Viu que o amigo ficara magoado (também um pouco assustado) e percebeu que fora longe demais &#8211; arrependendo-se na hora. Sabia que ali, ao seu lado, estava alguém que, por inúmeros motivos, merecia o respeito seu.</p>
<p>- Olha Doug, perdão. perdão. Eu, só&#8230; ah, cara, foi mal. Cabeça quente, entendeu?&#8230; eu não quis&#8230;</p>
<p>- Tudo bem, cara. Estou aqui pra ajudar. Se isto te fez sentir-se melhor, eu entendo. Além do mais, preciso engolir meu orgulho e admitir que estás certo. Já passou da hora de crescer, de ir além&#8230;</p>
<p>Zé concordou, cauteloso:</p>
<p>- Passou. Por isso, quero sair daqui.</p>
<p>Ambos ficaram calados por mais alguns momentos, parecendo aceitar e até mesmo serem gratos com a presença do outro. Era como se tudo &#8211; ou quase tudo, estivesse normal. Voltaram a sentir certa intimidade e a tratar-se com a sinceridade de sempre. E, enquanto calavam, pensavam sobre coisas distintas &#8211; mas estavam juntos, ali.</p>
<p>Como nos velhos tempos.</p>
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	</item>
		<item>
		<title>Parte I &#8211; A cidade sob o nevoeiro</title>
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		<pubDate>Wed, 15 Jul 2009 02:38:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Matte</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uma história sem importância]]></category>

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		<description><![CDATA[Um denso nevoeiro precipitou-se no oeste catarinense, escondendo aos poucos a cidade de Chapecó. As brumas baixaram como uma cortina, caindo sobre o topo dos edifícios e descendo vagarosamente até a vegetação mais rasteira. Não anoitecera completamente, mas as luzes nos postes já iam acesas, preparadas para a escuridão &#8211; anunciada inda há pouco, quando [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=omatte.wordpress.com&blog=1141163&post=100&subd=omatte&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p>Um denso nevoeiro precipitou-se no oeste catarinense, escondendo aos poucos a cidade de Chapecó. As brumas baixaram como uma cortina, caindo sobre o topo dos edifícios e descendo vagarosamente até a vegetação mais rasteira. Não anoitecera completamente, mas as luzes nos postes já iam acesas, preparadas para a escuridão &#8211; anunciada inda há pouco, quando os pardais começaram a agitar-se nas árvores da avenida, e partiram em revoada, espalhando dejetos pelo chão e por tudo o que estivesse sob si.</p>
<p>Em Chapecó &#8211; talvez como em qualquer outro lugar no mundo, os sinais do entardecer são marcantes &#8211; e o fazem na alma! Certas pessoas, mesmo trancafiadas em um escritório e completamente isoladas do mundo exterior, sabem assim mesmo que a noite aproxima-se, pois sentem uma melancolia típica do fim de tarde desta região &#8211; um sentimento de desolação tão intenso, garantem, que poderia ser agarrado em pleno vôo no ar! E assim, após a confirmação das horas numa breve consulta ao relógio, os comerciantes começaram a cadear as grades das vitrines, e ordenaram que os caixas somassem o dinheiro &#8211; sendo obedecidos com incontida alegria, pois é uma sexta-feira, e o expediente só retornará na segunda!</p>
<p>Mesmo em um lugar pacato &#8211; como esta nossa cidade, construída nas proximidades do rio Uruguai &#8211; um pequeno rebuliço é normal nesta hora do dia. É a hora em que comerciantes e consumidores abandonam o Centro e iniciam um intenso movimento humano em direção aos bairros. De um momento para o outro, explodem roncos de motor, buzinas, vozes e ruídos de passos apressados. Mas, apesar da ansiedade em rever o lar e da vontade de proteger-se do frio, todos estão um pouco mais cautelosos, hoje. Precisam apertar os olhos para conseguir andar pela névoa que vai-se adensando mais e mais. Ainda assim, avançam resolutos, sem ligar para as gotículas de água agarrando-se aos fios de seus cabelos, à lataria dos carros, e aos pêlos dos casacos.</p>
<p>A maioria dos habitantes da pequena cidade planejou uma noite de recolhimento, filmes, pizzas, namorados &#8211; um programa sensato para noites de inverno. Mas alguns eternos boêmios, apesar do mau tempo, não desistirão de ganhar as ruas em busca do bar mais movimentado (e, na falta deste, sentar-se-iam nas escadarias da igreja matriz e beberiam vinho &#8211; que é para espantar o frio, sem precisar mofar na umidade de um apartamento). Enquanto alguns dedos já roçam os botões do telefone em busca de seus amores e outros contam o dinheiro reunido para a bebedeira, uma alma agitada e inquieta caminha a esmo, tentando consolar-se na cegueira momentânea que as névoas proporcionam.</p>
<p>- Tudo é louco e sem sentido!</p>
<p>Este homem, triste e desanimada figura, merece nossa atenção especial. Não lhes falarei ainda sobre seu passado. Por hora, devo contar apenas o essencial para que o conheçam e para que saibam como se sente neste momento. Este homem, que dobra agora uma esquina, e o faz sem perceber, recebeu de seus pais o nome José &#8211; mas, por uma questão de eficiência e estilo, todos chamavam-lhe apenas Zé, &#8220;muito mais simples, e soa melhor!&#8221;.</p>
<p>Os problemas que agitam sua alma parecem profundos, mas ainda não conseguiu identificá-los. Sabe que algo muito errado aconteceu em sua vida, e sente que está passando por um período de transformação muito intensa &#8211; &#8220;mais intensa do que a cabeça consegue assimilar&#8221;. Não se sentia assim antes, quando era músico integrante de uma banda de rock e freqüentador assíduo dos bares da cidade. Nessa época, a vida se justificava sozinha nos intervalos entre os goles de cerveja. Mas, aos poucos, tudo foi perdendo a graça, e uma seqüência de dias ruins nocauteou-lhe, abalando profundamente qualquer sentido que sua vida pudesse possuir no jeito que a levava. Por isso, caminhava agora vagarosamente, cabisbaixo, taciturno, costas curvadas para frente, uma touca de lã caindo-lhe sobre os olhos e as mãos enterradas no fundo dos bolsos do casaco. Volta e meia chutava uma pedra, e a observava picar pelo asfalto. O desânimo estampava-lhe o rosto, seu semblante causava pena naqueles que o vissem.</p>
<p>Há muito tempo não aparecia nos bares, tampouco visitava os amigos. Certo é que a maioria já lhe havia esquecido, mas ainda havia uns poucos que tentavam tirar-lhe de casa nos fins de semana. Todavia, evitava os convites, preferia não encontrar com ninguém.</p>
<p>- Os rostos, todos eles&#8230; profundamente inexpressivos e&#8230; desanimadores. Por isto, prefiro andar olhando para o chão. Se as respostas existem, estão no chão, não posso encontrá-las no rosto ou na voz de ninguém.</p>
<p>Pensou em Deus, mas, que coisa!, era ateu já há algum tempo. De qualquer maneira, a tristeza profunda, que nunca ia embora, estava quase lhe derrotando, e já cogitava procurar consolo religioso.</p>
<p>- Esta névoa opressiva não me permite buscar ajuda nas estrelas! Mesmo que cresse em Deus, jamais conseguiria invocá-lo nos céus, através de todo este maldito nevoeiro! Chapecó está esquecida por Deus! Sempre foi. É um buraco maldito, no meio do nada, um inferno na terra, habitado por pessoas nojentas da pior espécie. Não há mais nada para mim nesta fossa medonha. Ninguém para conhecer, nenhum desafio. Já superei todas as malditas criaturas mesquinhas deste lugar, e, agora, elas estão a me importunar!</p>
<p>Chutou outra pedra e ela atravessou a rua picando, obrigando-o a levantar um pouco o olhar para observar o trajeto. Com o canto dos olhos, percebeu que caminhava em frente ao <em>Desbravador</em>, uma escultura de metal, aproximadamente 15 metros de altura, levantada no canteiro central da avenida Getúlio Vargas. O monumento retrata um homem em trajes gaúchos, segurando firme o machado na mão e um ramo de louro na outra &#8211; o homem domando a natureza, um símbolo do progresso, e uma homenagem aos colonizadores do local.</p>
<p>Observou longamente a obra, sem tampouco pensar em nada.  Havia um banco em frente à base da escultura.</p>
<p>Estava cansado, sentou.</p>
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		<title>O texto está de aniversário</title>
		<link>http://omatte.wordpress.com/2009/07/04/o-texto-esta-de-aniversario/</link>
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		<pubDate>Sat, 04 Jul 2009 17:34:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Matte</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[Esta rotina já está me cansando; aqui, como um idiota, sentado no quarto a sós – não fossem todos os ruídos da vida além de minha janela incluindo-me neste todo que rejeito: podem quatro paredes separar-me do mundo? – percebo a solidão e minha própria arrogância começarem a fatigar-me. É um encarceramento forçado, penso, mas [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=omatte.wordpress.com&blog=1141163&post=90&subd=omatte&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p>Esta rotina já está me cansando; aqui, como um idiota, sentado no quarto a sós – não fossem todos os ruídos da vida além de minha janela incluindo-me neste todo que rejeito: podem quatro paredes separar-me do mundo? – percebo a solidão e minha própria arrogância começarem a fatigar-me. É um encarceramento forçado, penso, mas necessário! Sento em minha cama, máquina de escrever ao colo – ou até uma guitarra, idéias infinitas pairando no ar, rogando serem percebidas (e eu as percebo todas, atormentando-me com sues berros): “ei, me escolha, me transforme em um belo texto”, ou “não, é a mim que você quer!”, infinitas vozes impacientes tagarelando ao mesmo tempo, tão ensurdecedoras que não me deixam em paz para pensar, para decidir o eu quero e preciso expressar: tantas possibilidades, mas tão limitadas as escolhas&#8230;</p>
<p>No fim, não decido por nenhuma e me sinto angustiado. A tormenta cresce, a insatisfação também: quanta impotência!, que incapacidade! Agonizo. Levanto e sorvo um gole de água, transpiro, suando frio, preocupando-me com o próprio destino: ao longe, nem no futuro distante, consigo visualizar a glória com que tanto sonhei. Percebo um inferno, aqui e agora, contemplo os céus através da vidraça &#8211; dentre as nuvens surge um dedo apontando para mim, acusador, EU, sendo vigiado, julgado e punido. Mostro-lhe outro dedo que não acusa, mas ofende, e ficamos quites. Recolho-me com medo do castigo, passo a vista em alguns livros, busco consolo e proteção em JHON FANTE ou CHARLES BUKOWSKI, extasio-me com sua rebeldia, até, enfim, me chatear. Talvez KURT COBAIN, ora, quem sabe, não custa tentar, poderei me acalmar&#8230;</p>
<p>Pura melancolia! Chega, melhor parar antes de pirar. O sol vai cada vez mais alto, e minha incapacidade mostra-se cada vez mais verdadeira: isto me agoniza; tenho pressa. Enquanto a noite chega, vagarosa (para mim), os ruídos da cidade fazem-se ouvir com mais força que nunca. É uma grande festa, bacanal celebrando a vida, buzinas, gritos, muita música e carros barulhentos e alegres. Todos estão felizes, este é o maldito dia abençoado, toda semana, todo domingo!!! Nada mais justo, mas não estou nem um pouco feliz e só quero silêncio!!! SILËNCIO!!! – um pouco de revigorante silêncio, e ninguém parece se importar, festejando suas felicidades dadivosas, lamentando ou vibrando um gol, e os mais chatos anunciam-me o perigo iminente com suas sirenes em estardalhaço – ora, precisam fazer tanto barulho só porque alguém está prestes a morrer??? AO DIABO VOCÊS E SUA FELICIDADE, VOCÊS E SUAS NOBRES VIDAS!!! Este som. Este barulho nojento. Em todo lugar.</p>
<p>Arrasto-me enjoado pelo quarto, deprimo-me com minha condição infeliz, e o acaso me apresenta a solução. Ali, em frente aos meus olhos, uma bela gravação de WAGNER!, alto, potente, forte, estrondoso e poderoso, Wagner, como uma cavalgada, como milhares de cavalos escoiceando teus ouvidos broncos. Algumas notas apenas incitam ao delírio, e preciso de muito pudor para manter o controle e não lhes gritar de minha janela:</p>
<p>- AH, VEJAM SÓ!, WAGNER É MUITO MELHOR QUE VOCÊS, MUITO MELHOR MESMO QUE TODOS VOCÊS JUNTOS!</p>
<p>Oh, muito melhor, certamente, mas vocês são chatos, oh, isto são, sim senhor. Fecho a janela e fico sozinho com Wagner. As paredes tremem, minhas mãos também&#8230; em pouco tempo, distraio-me e fico mais calmo. Então elas voltam: várias e várias delas, enxames barulhentos, tentando chamar minha atenção!</p>
<p>Com paciência, digo, enfileirem-se. Por favor, uma de cada vez. Isto, venha cá, você primeiro. Não se impaciente, vou atender todas. E tudo parece ir muito bem, até que a música termina subitamente, fazendo-me desconcentrar. Uma rebelião de idéias estoura, escapando de meu controle, meus próprios pensamentos investem contra mim ao perceber minha fraqueza – sim, tenho certeza, não sou paranóico, eles querem me pirar. Tantas possibilidades, tão limitadas as escolhas. Sinto-me um idiota.</p>
<p>Acendo um cigarro e trago longamente. Olho o céu e acho a noite horrível. Tampo os ouvidos e as coisas melhoram: é um belo luar, certamente, iluminando a cidade. Sinto-me inspirado. Guitarra ao colo, algo concreto começa a fluir. Agarro uma idéia pelo pé, rock dos bons, e a escravizo; empolgo-me, porém, ansioso, e antes mesmo de concluir o trabalho, inebrio-me tolamente.</p>
<p>- e no programa de hoje, falaremos com um dos grandes nomes do rock de nossos tempos: Gustavo Cemate!</p>
<p>APLAUSOS; ENTRO SORRINDO PARA AS CÂMERAS E ACENANDO.</p>
<p>- conte-nos, Cemate, como foi concebido este seu último grande sucesso?</p>
<p>- oh, tudo aconteceu num dia muito triste e sombrio. A vida me atormentava, e parecia que nada daria certo, mas fui persistente e compus esta bela canção.</p>
<p>APLAUSOS; OVAÇÕES; E UMA BUZINA IRRITANTE soa pertinho. Volto a sentir a guitarra apoiada em meu colo, mas os acordes soam feios e sem graça. Nem era uma idéia assim tão boa&#8230;</p>
<p>Sinto-me um idiota. Amanhã é segunda-feira, irei trabalhar e não terei tempo ou paciência para mais idéias. Algo precisar sair hoje!, incondicionalmente! Olho para a máquina, que me rejeita com desdém. Porquê, por todos os deuses, os espíritos imortais de HENRY CHINASKY ou ARTURO BANDINI não podem me possuir? Nada disto: é preciso matá-los, os heróis devem morrer, esganados com mão fortes torcendo-lhes o pescoço, queimados numa fogueira com os impressos de seus escritos, afogados numa privada plena de merda! É sim, é preciso, é preciso matar os próprios heróis. Estouro em raiva e angústia com esta percepção, afugento as idéias, vejo todas fugindo de mim e não movo um dedo para impedir. Sinto-me um idiota, não posso mais ficar sozinho. Ganho as ruas como um idiota, saio atrás de uma cerveja, parto em busca de alguém que me valorize mais do que eu mesmo, uma bela garota que me aviste ao longe e pense consigo: “nossa, que homem promissor, quanto estilo, quanta postura, que elegância rebelde!!”.</p>
<p>Então, tudo certo, vocês venceram, aqui estou, vamos festejar, fazer muito barulho, afinal, quem precisa de paz? Precisamos é de felicidade e alegria, ei, me dê este apito, me empreste sua fantasia, venha comigo gritar. Isto!, enfie a mão nesta maldita buzina!, vamos comemorar!, é o dia santo, dia do descanso, o sétimo dia!</p>
<p>Me sinto um idiota, o único idiota no meio de toda esta turba feliz e sorridente. Não consigo ser paciente ou humilde, que arrogante, que idiota! Eu, à mercê desta vida babaca, dando-me conta de que só os idiotas nunca se sentem como uns idiotas.</p>
<p> </p>
<p><strong>JULHO/2008</strong></p>
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		<item>
		<title>Surtei legal&#8230;</title>
		<link>http://omatte.wordpress.com/2009/06/29/surtei-legal/</link>
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		<pubDate>Mon, 29 Jun 2009 06:06:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Matte</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[&#8230;e não vou mais postar nenhum texto meu nesse negócio, não&#8230;
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			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p>&#8230;e não vou mais postar nenhum texto meu nesse negócio, não&#8230;</p>
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