Nota importante – Eu e o fantástico

Esta história tomará novo rumo daqui para frente. Retrocederemos (eu e mais quem?) alguns 50 anos no tempo, até uma época em que Chapecó pouco mais era que uma pequena cidade de colonos gaúchos com ascendência italiana ou alemã; uma terra com pouca ou nenhuma lei, de difícil acesso, e com notável fama de paragem hostil. Mas, antes de continuar, pretendo registrar estes pensamentos que vieram-me à cabeça durante a madrugada, enquanto tentava dormir.

Parando para revisar o passado de meu gosto artístico, acabei por descobrir muita coisa a respeito da natureza de minhas preferências, e percebo que as leituras que fiz explicam muito mais sobre minha vida e personalidade do que eu mesmo poderia imaginar. A mim está claro sempre ter priorizado o aventuresco fantástico ao realista contido; o inesperado ao cotidiano enfadonho; os versos do desconhecido à meras descrições do habitual. Mas, sinceramente, nunca havia reparado em o quanto isto tudo me intriga – pois que sim!, algo nisto muito me intriga – sempre, sempre me intrigou – algo de sublime revelado pela incursão do homem em lugares desconhecidos. Então, entre histórias de faroeste, contos de piratas ou desbravadores ultramarinos, e até, quando possível, imaginações a respeito da colonização espacial (talvez, quem duvida, o próximo passo da humanidade curiosa e aventureira), fui construindo meu próprio cânone de leituras, que transformavam um pouco a impressão tediosa que sempre tive: desta época, deste mundo, deste lugar.

O fato é que me sinto um tanto injustiçado por ter nascido nestes tempos de comodidades, quando quase todos os cantos deste planeta já foram palmilhados por olhos humanos, ou por lentes de satélites – e os que não foram, com certeza, é por estarem muito bem escondidos no subterrâneo. Sobrevêm a isto uma eterna sensação monotonia, de marasmo, um tédio completo e impossível de reverter. É como não existisse outra opção, a não ser continuar vivendo no meio desta civilização doente. É como se não houvesse um lugar para onde fugir.

Assim, desde criança, esforço-me ao máximo na tentativa de projetar minha mente ao corpo de criaturas como Ulisses, Hernan Cortez, Cristóvão Colombo, Fernão de Magalhães, James Cook, Edward Teach, Sir. Francis Drake, Robinson Crusoé, Conan da Ciméria, Bilbo Bolseiro, Meriwether Lewis e seu companheiro William Clark, Billy the Kid, Tenente Blueberry, Ken Parker, Phileas Fogg, Long John Silver, Allan Quatermain, Luis Carlos Prestes, Ernesto Guevara, Alexander Supertramp, Perry Rhodan – aventureiros que, de carne ou de papel, fascinaram a mim e à humanidade com as histórias de seus feitos maravilhosos e mergulhos ao desconhecido. Queria poder ver o mundo com seus olhos fascinados, poder com eles desbravar a natureza selvagem, inserir-me em lugares desconhecidos, viver o dia de hoje sem saber ou importar-me com o lugar onde estaria amanhã – expor-me, enfim, de peito nu às mais sérias reviravoltas do destino. Fui, desta forma, um garotinho que salvou donzelas presas na torre mais alta do castelo sombrio, um adolescente que duelou com revólveres ao pôr do sol, que atravessou o atlântico em uma fragata e morou por muitos anos sozinho em uma ilha deserta; fui um jovem que pisou na lua e conheceu planetas distantes, que escondeu-se, num porão, dos alienígenas que invadiam a terra; e assim, somente assim, consegui superar as 4 paredes que circundavam meu quarto – meu habitat imutável, sempre, sempre igual.

Até tentei, durante uma época, encontrar aventura nas ruas, entre bebedeiras e amizades malucas. Mas nada, simplesmente NADA, acontecia. Então, a vida pareceu perder toda a graça… e precisei, feliz ou infelizmente, recorrer ao meu antigo, velho refúgio. Sim, é um pouco estranho, eu sei, um homem com a minha idade continuar cultivando estes gêneros, e, volta e meia, realmente me sinto um pouco infantil. Há, certamente, nos dias de hoje, um grande preconceito em relação ao fantástico – parece-me que os círculos intelectuais estão preocupados demais tentando explicar os dramas existenciais, estão todos muito absortos em buscas filosóficas introspectivas e por demais profundas. Compreendo que talvez esta coisa misteriosa, o dito “ser”, seja o lugar desconhecido que o homem de hoje deve tentar desbravar, porque não? De minha parte, passei longo período – longo, longo mesmo – tentando descobrir os detalhes do meu “eu”, mas, sinceramente, não gostei nada das monstruosidades que vi! E, que tristeza, não posso matar meus demônios com um tiro de pistola ou um golpe de espada certeiro, não posso fugir deles esporeando um cavalo ou içando velas a bombordo, simplesmente NÃO POSSO!

Mas há um jeito de subjugá-los, apenas um jeito: escrever.

Tenho um grande amigo que costuma dizer: “as pessoas procuram motivos para escrever. Eu, simplesmente, escrevo”. Ora, Rodrigo, vai-te à merda, rapaz. Antes de sentar e escrever, mesmo antes de abrir um livro, há um motivo – ou uma série deles, que leva o cara até ali. Acredito que o motivo de cada um é diferente, e o meu, provavelmente, nada mais deve ser do que uma ânsia em dividir com as pessoas o mundo tal qual estes olhos o vêem: aquilo que, para a maior parte dos homens, é talvez um simples edifício abandonado, na minha cabeça transforma-se em uma construção assustadora e demoníaca; um simples incêndio criminoso, para mim, pode esconder, e por que não, a tragédia de infâncias perdidas, homens cruéis com um passado difícil; e a história do linchamento de 4 indivíduos em praça pública, isto sim, isto meche com meus brios, de tal forma que tenho a necessidade de que o mundo inteiro saiba comigo os sentimentos de fantasia que estes eventos inspiram – eventos que ocorreram aqui, nesta terra esquecida, uma história trágica, intensa, que ilustra um lado da natureza humana que a civilização julgava esquecida desde os tempos da inquisição; uma história para a qual muito poucos parecem dar atenção.

 Esta é a história que eu pretendo contar, como uma brincadeira, um exercício, uma diversão.

~ por Matte em Agosto 17, 2009.

3 Respostas to “Nota importante – Eu e o fantástico”

  1. Conheci Chapecó e Xaxim na década de 90, muito após da época “faroeste” de 50 anos atrás. As referencias literárias, filmes e séries citadas, também são próximos as minhas. Algumas, como a série de ficção científica espacial Perry Rhodan, até retornei a revisitar. Apesar de não escrever, sempre encontrei “motivo” para ler. Rir, descontrair, sonhar, aprender e pensar é o que busco, e este texto trouxe estes ingredientes. Parabéns. Ah! Para rever/debater a série PR, visite a comunidade no Orkut: http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=66731

  2. até que enfim vc escreveu algo que me afetou/comoveu(nao consigo definir).

    adorei a pesar de não concordar com algumas coisas ;P

    saudades matildo

  3. Cara, vc me emociona.

    Este texto transpira franqueza. É essencialmente Matte.

    Pode continuar gostando de Guns pra sempre. Se vc me levava a sério com aquela conversa de 16 anos pode esquecer e rir à vontade.

    E vc ainda respondeu ao Rodrigo por mim.

    Aquele abraço, piazão.

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