Parte V – o louco mendigo
Por entre as névoas que turvam a noite, surge um velho mendigo bêbado que vai falando sozinho. Seus assuntos são inaudíveis, e de pouco serviria proferir palavras inteligíveis, pois não há ninguém nas ruas para ouvir-lhe. O frio despenca impiedosamente sobre suas costas judiadas pelo peso de um saco que carrega, cheio de bugigangas – há muitos e muitos anos, o mesmo saco de estopa – e os poucos trapos sujos que veste não são suficientes para impedir um tremor gelado de chacoalhar-lhe as juntas, da mandíbula ao dedão do pé – que refresca-se ao relento, através de um grande furo no sapato. Mas o velho mendigo não se deixa abater.
Envolto em fumaça branca de vapores de água, na próxima esquina está edificado seu abrigo temporário, um velho moinho abandonado e que – na pior das hipóteses – poderia a qualquer momento desabar-lhe sobre a cabeça. Mas a vida, oras, rapaz, dizia o velho mendigo, a vida é um risco – e assim, nada há para temer. E repetia suas próprias palavras para a solidão da noite, nada a temer, rapaz, e que os raios me partam se amanhã, pelo menos, não arranjarei um belo jantar!
Assustou-se, no entanto, ao perceber que a porta de sua morada fora arrombada, e muitas coisas passaram-lhe pela cabeça: a polícia, talvez, ou quem sabe a porta despencou sozinha, pois bem, não seria impossível num lugar apodrecido como este! Mas o que mais lhe amedrontava era a idéia dos jovens skinheads que andavam linchando mendigos por aí, nesta cidade de coronéis onde alguns ainda ditavam as próprias leis. Que seja, não há o que temer! Nesta terra nasci, nesta terra cresci, dela fui embora e a ela retornei – pois que nela morrerei!
Determinado, então, foi entrando no velho moinho – e com muita facilidade caminhava lá dentro, pois já estava hospedado ali havia uma semana, e familiarizara-se com o local. Apesar disso, não era nenhum morcego para andar assim, no escuro, evitando qualquer esbarrão – quanto mais após um trago – e fez muito barulho no caminho. Quando ouviram os ruídos dos passos, cada fibra do corpo de Zé e Doug – que fumavam num canto em silêncio – retesou-se, e os dois ficaram morrendo de medo. O velho mendigo via a brasa do cigarro brilhando como um pequeno vaga-lumes na escuridão, lá perto de onde sempre acendia sua fogueira. Então, esbarrou em mais alguns tijolos, que fizeram um ruído horrível ao despencarem sobre o chão. Zé, tenso de pavor indescritível, encorajou-se e perguntou:
- Q… Quem vem lá?
- Oras – respondeu o mendigo com sua voz cavernosa e sinistra, prosseguindo em sua caminhada pelo escuro. Sinto cheiro de maconha em minha casa! Vou querer também!
- Quem vem lá? – repetiu Zé com voz firme, mas ainda temeroso.
- Meu amigo – foi dizendo o velho, esta é minha casa, e você está sentado perto do meu aquecedor! Ei, sobrou uma tragada pra mim?
- Afaste-se – tentou advertir Zé, tateando o chão em busca de sua lanterna. Estamos armados!
- Oras, pois que não tenho medo, sendo que a vida é um risco! – respondeu o mendigo, insanamente filosófico.
Doug estava quase morrendo de pavor. E a mão de Zé encontrou a lanterna no chão. Sacou-a e acendeu-a com velocidade desesperada, procurando o dono da voz que se lhes dirigia. E focou a luz bem no rosto do velho, que estava a alguns metros de distância. Sua barba branca e comprida – à semelhança dos cabelos grisalhos – brilhou na face amorenada de pó e fuligem. Levando a mão rapidamente ao rosto, e com a outra golpeando o ar na sua frente, o mendigo assumiu uma postura cômica, e assim lhes falou:
- Tira essa coisa da minha cara – e então, aproximando-se de Zé, pegou-lhe a lanterna das mãos – Vamos, me dá isso aqui.
Zé não reagiu. O mendigo desligou a lanterna e tudo voltou a ficar escuro. Então, ele perguntou:
- Sobrou uma tragada desse baseado pra mim?
- C..C..Claro! – respondeu Doug, entregando o cigarro ao velho amalucado.
- O que vocês vieram fazer na minha casa? – perguntou, começando a tragar.
- Ahn… – começou Zé, escolhendo as palavras, meio sem saber o que dizer – bem, a gente achou que…
- A gente não – interrompeu Doug – a idéia foi dele. Disse que queria sentir um “clima sombrio”…
O mendigo fez cara de entusiasmo.
- Clima sombrio, hem – disse, arregalando os olhos. Vocês gostam de histórias sombrias? Pois que eu conheço uma ótima, um causo que passou-se aqui mesmo, nesta cidade.
Zé e Doug estavam congelados. Não movimentavam um músculo. Apenas ouviam. O mendigo continuou fumando o baseado, sozinho, esquecendo de passar aos outros dois – que, por sua vez, já haviam esquecido da maconha – e o fato de estarem muito chapados só lhes aumentava a sensação de terror que a situação inesperada inspirava.
- Ora, vamos – disse o velho de uma vez. Sentem-se aí que eu vou lhes contar a história.
Zé e Doug, um pouco a contragosto – mas também curiosos pela tal história, voltaram a sentar-se. Então, entre uma tragada e outra, com seus trejeitos e frases tresloucadas, o velho mendigo começou a falar.

Isso tá demais cara!
Vá em frente.