Parte IV – Adentrando o Velho Moinho
Zé não respondeu. Parecia não estar ouvindo, enquanto olhava seriamente para o Moinho abandonado, na esquina aonde estavam parados.
- Zé? – continuou Doug, falando sozinho – Bem, acho que podemos fumar aqui mesmo. Com essa névoa, ninguém vai ver…
Mas, baixando o olhar no rosto do amigo, Zé rejeitou a proposta:
- Não, cara. Hoje, quero curtir um clima mais… sombrio.
- Clima sombrio? – estranhou Doug, que já estava com o baseado na boca, pronto para acender.
- É – foi a resposta. Quero uma coisa diferente – e, indicando o moinho com um meneio de cabeça, completou: Vamos entrar aí.
Doug soltou um riso abafado, daqueles que faz o ar sair com força pelas narinas. Então, riscou um fósforo, e ia acender o baseado, mas Zé assoprou e fez o palito apagar.
- Zé, você é maluco – argumentou Doug. Essa coisa vai desmoronar nas nossas cabeças. Além do mais, é escuro aí dentro.
Com um sorriso maroto, Zé tirou a mochila das costas e de lá sacou uma pequena lanterna, que ficara ali por acaso, após seu último acampamento. Na verdade, foi exatamente a consciência de trazer uma lanterna consigo o que amadureceu em sua cabeça a idéia de entrar naquele lugar abandonado, lar de morcegos, aranhas, musgos, lesmas, caracóis, e sabe-se lá que outras criaturas partidárias de umidade e escuro ao invés de estimulante luz solar. Empurrando com a mão direita, Zé tentou forçar a tosca porta de madeira que estancava o local, mas, como não cedia, logo começou a empurrar com o ombro, e depois com as costas – sem, no entanto, obter resultado. Doug, incrédulo, só observava, ainda com o baseado apagado no canto boca.
- Não vai ajudar? – perguntou Zé.
“Fala sério, então, este doido” – pensou Doug, e, aproximando-se da porta, derrubou-a com um belo coice. O estampido ecoou com força por entre as paredes da velha construção, e o tombo da porta fez a poeira levantar numa nuvem. Assim, após encarar o breu lá de dentro por um breve momento, Zé ligou a lanterna, adiantando-se ao amigo, e foi entrando na frente. A escuridão era tão densa que parecia palpável, os fachos de luz da lanterna agiam como facas luminosas sulcando o ar abafado e notavelmente pesado. Aonde incidiam, iluminavam restos de tijolos e tábuas, também algumas estruturas de metal. Quando mirou a lanterna no alto, assustou os morcegos, que iniciaram louca revoada. Então, desviou a lanterna, e os animais acalmaram-se em poucos instantes – o ruído de suas asas e seus sibilos agudos morrendo aos pouquinhos. Os dois, após o susto, continuaram adentrando vagarosamente na construção, envolvendo-se numa atmosfera sombria, com a respiração presa ao máximo – e todos os sentidos atentos ao menor sinal de movimento. Até que, num canto, perceberam os restos de uma fogueira.
- Vamos dar o fora! – disse Doug, assustado, dando meia-volta e puxando Zé pela manga. Tem gente morando aqui!
- Relaxa, Doug – respondeu Zé – Deve ser algum mendigo – e percorrendo a lanterna por todo o local, inquiriu ao escuro: “têm alguém aí?” Mas as palavras apenas ecoaram, sem resposta. “Têm alguém aí?”, repetiu, com mais força, mas, novamente, apenas o eco respondeu algo em troca.
Assim sendo, dirigiram-se cautelosamente – pois volta e meia os escombros pareciam ceder ao peso dos dois – até o local onde estavam os restos da fogueira, e ali ficaram sentados. Ouviam um pio de coruja ali perto. Com a lanterna, Zé tentava encontrá-la. Avistou, então, numa falha do telhado, de costas para a noite – e era uma bela coruja cinzenta.
- Já podemos fumar, agora? – perguntou Doug.
- Sim, maconheiro ansioso. Agora, vamos fumar.
- O clima está sombrio o suficiente para o senhor? – zombou Doug, com um riso de escárnio. E Zé riu:
- Hahaha! Muito sombrio!
Uma chama de fósforo brilhou na escuridão, e os dois, em silêncio, engoliam a fumaça doce.

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