O texto está de aniversário

Esta rotina já está me cansando; aqui, como um idiota, sentado no quarto a sós – não fossem todos os ruídos da vida além de minha janela incluindo-me neste todo que rejeito: podem quatro paredes separar-me do mundo? – percebo a solidão e minha própria arrogância começarem a fatigar-me. É um encarceramento forçado, penso, mas necessário! Sento em minha cama, máquina de escrever ao colo – ou até uma guitarra, idéias infinitas pairando no ar, rogando serem percebidas (e eu as percebo todas, atormentando-me com sues berros): “ei, me escolha, me transforme em um belo texto”, ou “não, é a mim que você quer!”, infinitas vozes impacientes tagarelando ao mesmo tempo, tão ensurdecedoras que não me deixam em paz para pensar, para decidir o eu quero e preciso expressar: tantas possibilidades, mas tão limitadas as escolhas…

No fim, não decido por nenhuma e me sinto angustiado. A tormenta cresce, a insatisfação também: quanta impotência!, que incapacidade! Agonizo. Levanto e sorvo um gole de água, transpiro, suando frio, preocupando-me com o próprio destino: ao longe, nem no futuro distante, consigo visualizar a glória com que tanto sonhei. Percebo um inferno, aqui e agora, contemplo os céus através da vidraça – dentre as nuvens surge um dedo apontando para mim, acusador, EU, sendo vigiado, julgado e punido. Mostro-lhe outro dedo que não acusa, mas ofende, e ficamos quites. Recolho-me com medo do castigo, passo a vista em alguns livros, busco consolo e proteção em JHON FANTE ou CHARLES BUKOWSKI, extasio-me com sua rebeldia, até, enfim, me chatear. Talvez KURT COBAIN, ora, quem sabe, não custa tentar, poderei me acalmar…

Pura melancolia! Chega, melhor parar antes de pirar. O sol vai cada vez mais alto, e minha incapacidade mostra-se cada vez mais verdadeira: isto me agoniza; tenho pressa. Enquanto a noite chega, vagarosa (para mim), os ruídos da cidade fazem-se ouvir com mais força que nunca. É uma grande festa, bacanal celebrando a vida, buzinas, gritos, muita música e carros barulhentos e alegres. Todos estão felizes, este é o maldito dia abençoado, toda semana, todo domingo!!! Nada mais justo, mas não estou nem um pouco feliz e só quero silêncio!!! SILËNCIO!!! – um pouco de revigorante silêncio, e ninguém parece se importar, festejando suas felicidades dadivosas, lamentando ou vibrando um gol, e os mais chatos anunciam-me o perigo iminente com suas sirenes em estardalhaço – ora, precisam fazer tanto barulho só porque alguém está prestes a morrer??? AO DIABO VOCÊS E SUA FELICIDADE, VOCÊS E SUAS NOBRES VIDAS!!! Este som. Este barulho nojento. Em todo lugar.

Arrasto-me enjoado pelo quarto, deprimo-me com minha condição infeliz, e o acaso me apresenta a solução. Ali, em frente aos meus olhos, uma bela gravação de WAGNER!, alto, potente, forte, estrondoso e poderoso, Wagner, como uma cavalgada, como milhares de cavalos escoiceando teus ouvidos broncos. Algumas notas apenas incitam ao delírio, e preciso de muito pudor para manter o controle e não lhes gritar de minha janela:

- AH, VEJAM SÓ!, WAGNER É MUITO MELHOR QUE VOCÊS, MUITO MELHOR MESMO QUE TODOS VOCÊS JUNTOS!

Oh, muito melhor, certamente, mas vocês são chatos, oh, isto são, sim senhor. Fecho a janela e fico sozinho com Wagner. As paredes tremem, minhas mãos também… em pouco tempo, distraio-me e fico mais calmo. Então elas voltam: várias e várias delas, enxames barulhentos, tentando chamar minha atenção!

Com paciência, digo, enfileirem-se. Por favor, uma de cada vez. Isto, venha cá, você primeiro. Não se impaciente, vou atender todas. E tudo parece ir muito bem, até que a música termina subitamente, fazendo-me desconcentrar. Uma rebelião de idéias estoura, escapando de meu controle, meus próprios pensamentos investem contra mim ao perceber minha fraqueza – sim, tenho certeza, não sou paranóico, eles querem me pirar. Tantas possibilidades, tão limitadas as escolhas. Sinto-me um idiota.

Acendo um cigarro e trago longamente. Olho o céu e acho a noite horrível. Tampo os ouvidos e as coisas melhoram: é um belo luar, certamente, iluminando a cidade. Sinto-me inspirado. Guitarra ao colo, algo concreto começa a fluir. Agarro uma idéia pelo pé, rock dos bons, e a escravizo; empolgo-me, porém, ansioso, e antes mesmo de concluir o trabalho, inebrio-me tolamente.

- e no programa de hoje, falaremos com um dos grandes nomes do rock de nossos tempos: Gustavo Cemate!

APLAUSOS; ENTRO SORRINDO PARA AS CÂMERAS E ACENANDO.

- conte-nos, Cemate, como foi concebido este seu último grande sucesso?

- oh, tudo aconteceu num dia muito triste e sombrio. A vida me atormentava, e parecia que nada daria certo, mas fui persistente e compus esta bela canção.

APLAUSOS; OVAÇÕES; E UMA BUZINA IRRITANTE soa pertinho. Volto a sentir a guitarra apoiada em meu colo, mas os acordes soam feios e sem graça. Nem era uma idéia assim tão boa…

Sinto-me um idiota. Amanhã é segunda-feira, irei trabalhar e não terei tempo ou paciência para mais idéias. Algo precisar sair hoje!, incondicionalmente! Olho para a máquina, que me rejeita com desdém. Porquê, por todos os deuses, os espíritos imortais de HENRY CHINASKY ou ARTURO BANDINI não podem me possuir? Nada disto: é preciso matá-los, os heróis devem morrer, esganados com mão fortes torcendo-lhes o pescoço, queimados numa fogueira com os impressos de seus escritos, afogados numa privada plena de merda! É sim, é preciso, é preciso matar os próprios heróis. Estouro em raiva e angústia com esta percepção, afugento as idéias, vejo todas fugindo de mim e não movo um dedo para impedir. Sinto-me um idiota, não posso mais ficar sozinho. Ganho as ruas como um idiota, saio atrás de uma cerveja, parto em busca de alguém que me valorize mais do que eu mesmo, uma bela garota que me aviste ao longe e pense consigo: “nossa, que homem promissor, quanto estilo, quanta postura, que elegância rebelde!!”.

Então, tudo certo, vocês venceram, aqui estou, vamos festejar, fazer muito barulho, afinal, quem precisa de paz? Precisamos é de felicidade e alegria, ei, me dê este apito, me empreste sua fantasia, venha comigo gritar. Isto!, enfie a mão nesta maldita buzina!, vamos comemorar!, é o dia santo, dia do descanso, o sétimo dia!

Me sinto um idiota, o único idiota no meio de toda esta turba feliz e sorridente. Não consigo ser paciente ou humilde, que arrogante, que idiota! Eu, à mercê desta vida babaca, dando-me conta de que só os idiotas nunca se sentem como uns idiotas.

 

JULHO/2008

~ por Matte em Julho 4, 2009.

3 Respostas to “O texto está de aniversário”

  1. Hehehehe.
    Parabéns para o meu texto! Ele está de aniversário!
    1 aninho. chuif. que bonitinho!

  2. carne e cerveja!

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