O texto está de aniversário

•Julho 4, 2009 • 3 Comentários

Esta rotina já está me cansando; aqui, como um idiota, sentado no quarto a sós – não fossem todos os ruídos da vida além de minha janela incluindo-me neste todo que rejeito: podem quatro paredes separar-me do mundo? – percebo a solidão e minha própria arrogância começarem a fatigar-me. É um encarceramento forçado, penso, mas necessário! Sento em minha cama, máquina de escrever ao colo – ou até uma guitarra, idéias infinitas pairando no ar, rogando serem percebidas (e eu as percebo todas, atormentando-me com sues berros): “ei, me escolha, me transforme em um belo texto”, ou “não, é a mim que você quer!”, infinitas vozes impacientes tagarelando ao mesmo tempo, tão ensurdecedoras que não me deixam em paz para pensar, para decidir o eu quero e preciso expressar: tantas possibilidades, mas tão limitadas as escolhas…

No fim, não decido por nenhuma e me sinto angustiado. A tormenta cresce, a insatisfação também: quanta impotência!, que incapacidade! Agonizo. Levanto e sorvo um gole de água, transpiro, suando frio, preocupando-me com o próprio destino: ao longe, nem no futuro distante, consigo visualizar a glória com que tanto sonhei. Percebo um inferno, aqui e agora, contemplo os céus através da vidraça – dentre as nuvens surge um dedo apontando para mim, acusador, EU, sendo vigiado, julgado e punido. Mostro-lhe outro dedo que não acusa, mas ofende, e ficamos quites. Recolho-me com medo do castigo, passo a vista em alguns livros, busco consolo e proteção em JHON FANTE ou CHARLES BUKOWSKI, extasio-me com sua rebeldia, até, enfim, me chatear. Talvez KURT COBAIN, ora, quem sabe, não custa tentar, poderei me acalmar…

Pura melancolia! Chega, melhor parar antes de pirar. O sol vai cada vez mais alto, e minha incapacidade mostra-se cada vez mais verdadeira: isto me agoniza; tenho pressa. Enquanto a noite chega, vagarosa (para mim), os ruídos da cidade fazem-se ouvir com mais força que nunca. É uma grande festa, bacanal celebrando a vida, buzinas, gritos, muita música e carros barulhentos e alegres. Todos estão felizes, este é o maldito dia abençoado, toda semana, todo domingo!!! Nada mais justo, mas não estou nem um pouco feliz e só quero silêncio!!! SILËNCIO!!! – um pouco de revigorante silêncio, e ninguém parece se importar, festejando suas felicidades dadivosas, lamentando ou vibrando um gol, e os mais chatos anunciam-me o perigo iminente com suas sirenes em estardalhaço – ora, precisam fazer tanto barulho só porque alguém está prestes a morrer??? AO DIABO VOCÊS E SUA FELICIDADE, VOCÊS E SUAS NOBRES VIDAS!!! Este som. Este barulho nojento. Em todo lugar.

Arrasto-me enjoado pelo quarto, deprimo-me com minha condição infeliz, e o acaso me apresenta a solução. Ali, em frente aos meus olhos, uma bela gravação de WAGNER!, alto, potente, forte, estrondoso e poderoso, Wagner, como uma cavalgada, como milhares de cavalos escoiceando teus ouvidos broncos. Algumas notas apenas incitam ao delírio, e preciso de muito pudor para manter o controle e não lhes gritar de minha janela:

- AH, VEJAM SÓ!, WAGNER É MUITO MELHOR QUE VOCÊS, MUITO MELHOR MESMO QUE TODOS VOCÊS JUNTOS!

Oh, muito melhor, certamente, mas vocês são chatos, oh, isto são, sim senhor. Fecho a janela e fico sozinho com Wagner. As paredes tremem, minhas mãos também… em pouco tempo, distraio-me e fico mais calmo. Então elas voltam: várias e várias delas, enxames barulhentos, tentando chamar minha atenção!

Com paciência, digo, enfileirem-se. Por favor, uma de cada vez. Isto, venha cá, você primeiro. Não se impaciente, vou atender todas. E tudo parece ir muito bem, até que a música termina subitamente, fazendo-me desconcentrar. Uma rebelião de idéias estoura, escapando de meu controle, meus próprios pensamentos investem contra mim ao perceber minha fraqueza – sim, tenho certeza, não sou paranóico, eles querem me pirar. Tantas possibilidades, tão limitadas as escolhas. Sinto-me um idiota.

Acendo um cigarro e trago longamente. Olho o céu e acho a noite horrível. Tampo os ouvidos e as coisas melhoram: é um belo luar, certamente, iluminando a cidade. Sinto-me inspirado. Guitarra ao colo, algo concreto começa a fluir. Agarro uma idéia pelo pé, rock dos bons, e a escravizo; empolgo-me, porém, ansioso, e antes mesmo de concluir o trabalho, inebrio-me tolamente.

- e no programa de hoje, falaremos com um dos grandes nomes do rock de nossos tempos: Gustavo Cemate!

APLAUSOS; ENTRO SORRINDO PARA AS CÂMERAS E ACENANDO.

- conte-nos, Cemate, como foi concebido este seu último grande sucesso?

- oh, tudo aconteceu num dia muito triste e sombrio. A vida me atormentava, e parecia que nada daria certo, mas fui persistente e compus esta bela canção.

APLAUSOS; OVAÇÕES; E UMA BUZINA IRRITANTE soa pertinho. Volto a sentir a guitarra apoiada em meu colo, mas os acordes soam feios e sem graça. Nem era uma idéia assim tão boa…

Sinto-me um idiota. Amanhã é segunda-feira, irei trabalhar e não terei tempo ou paciência para mais idéias. Algo precisar sair hoje!, incondicionalmente! Olho para a máquina, que me rejeita com desdém. Porquê, por todos os deuses, os espíritos imortais de HENRY CHINASKY ou ARTURO BANDINI não podem me possuir? Nada disto: é preciso matá-los, os heróis devem morrer, esganados com mão fortes torcendo-lhes o pescoço, queimados numa fogueira com os impressos de seus escritos, afogados numa privada plena de merda! É sim, é preciso, é preciso matar os próprios heróis. Estouro em raiva e angústia com esta percepção, afugento as idéias, vejo todas fugindo de mim e não movo um dedo para impedir. Sinto-me um idiota, não posso mais ficar sozinho. Ganho as ruas como um idiota, saio atrás de uma cerveja, parto em busca de alguém que me valorize mais do que eu mesmo, uma bela garota que me aviste ao longe e pense consigo: “nossa, que homem promissor, quanto estilo, quanta postura, que elegância rebelde!!”.

Então, tudo certo, vocês venceram, aqui estou, vamos festejar, fazer muito barulho, afinal, quem precisa de paz? Precisamos é de felicidade e alegria, ei, me dê este apito, me empreste sua fantasia, venha comigo gritar. Isto!, enfie a mão nesta maldita buzina!, vamos comemorar!, é o dia santo, dia do descanso, o sétimo dia!

Me sinto um idiota, o único idiota no meio de toda esta turba feliz e sorridente. Não consigo ser paciente ou humilde, que arrogante, que idiota! Eu, à mercê desta vida babaca, dando-me conta de que só os idiotas nunca se sentem como uns idiotas.

 

JULHO/2008

Surtei legal…

•Junho 29, 2009 • 1 Comentário

…e não vou mais postar nenhum texto meu nesse negócio, não…

Determinismo e Probabilidade

•Abril 3, 2008 • 1 Comentário

Ao brincar com uma moeda, verifico que aproximadamente ela cai em duas vezes num lado, uma em duas vezes no outro. Nenhum destes eventos têm a mesma probabilidade. Qual é a lei fundamental da natureza? É uma lei determinista? As leis da mecânica clássica devem, de qualquer maneira, aplicar-se a esta moeda: é uma massa pesada e não um átomo. Mas verificamos também que o resultado é probabilístico e não determinístico. Como conciliar probabilidade e determinismo no caso da moeda? Poderia depender da precisão, com que me previ, das condições iniciais. Se posso efetivamente impor condições inicais suficientemente exatas para predizer o resultado do jogo, posso concluir que o resultado é determinístico, e o emprego das probabilidades derivaria, neste contexto, da minha ignorância relativa das condições iniciais (…) Mas a ignorância é a única fonte das surpresas? NÂO! Existem sistemas dinâmicos tais que nehum conhecimento finito das condições iniciais permite prever o resultado do jogo. Para esta espécie de sistemas dinâmicos basta que mude infinitesamente a minha condição inicial para que outro evento se produza. (…)

Na concepção clássica, o determinismo era fundamental e a probabilidade era uma aproximação da descrição determinista, derivada da nossa informação imperfeita. Hoje, é o contrário: as estruturas da natureza obrigam-nos a introduzir as probabilidades independentemente da informação  que possuíamos. A descrição determinista não se aplica de fato a não ser a situações simples, idealizadas, que não são representativas da realidade física que nos rodeia.

ILYA PRIGOGINE

Disse tudo que tenho a dizer, já que há poucos por quem falar

•Janeiro 28, 2008 • 1 Comentário

(…) Em junho de 1871, o general George Crook chegou a Tucson para assumir o governo do Departamento do Arizona. Poucas semanas depois, Vincent Colyer, um representante especial da Agência índia, chegou a Camp Grant. Ambos os homens estavam particularmente interessados em conseguir um encontro com os principais apaches, especialmente Cochise.

            Colyer encontrou-se primeiro com Eskiminzin, esperando convencê-lo a voltar à sua disposição pacífica. Eskiminzin viera das montanhas e disse que estava contente por falar de paz com o comissário Colyer. “O comissário provavelmente pensava que encontraria um grande capitán”, afirmou tranquilamente Eskiminzin, “mas só vê um homem muito pobre sem muito de um capitán. Se o comissário tivesse me visto a três luas atrás, teria visto um capitán. Então, eu tinha muita gente, mas muitos foram massacrados. Agora eu tenho pouca gente. Desde que deixei este lugar, estive por perto. Sabia que tinha amigos aqui, mas tinha medo de voltar. Nunca tive muito a dizer, mas isto posso dizer, gosto deste lugar. Disse tudo que deveria dizer, já que tenho poucas pessoas por quem falar. Se não fosse pelo massacre, haveria muito mais gente aqui nesse momento; mas depois do massacre, quem poderia ficar? Quando fiz a paz com o tenente Whitman, meu coração estava muito grande e feliz. A gente de Tucson e San Xavier deve ser louca. Agiram como se não tivessem cabeças nem corações… devem ter sede de nosso sangue… Essa gente de Tucson escreveu para os jornais e contou a sua história. Os apaches não têm ninguém para contar sua história”.

            Colyer prometeu contar a história dos apaches ao Pai Grande e aos brancos que nunca a haviam ouvido.

            “Acho que deve ter sido Deus que lhe deu um bom coração para vir e nos encontrar, ou então o senhor deve ter uma boa mãe e um bom pai que o fizeram tão bondoso”

            “Foi Deus”, declarou Colyer.

            “Foi”, disse Eskiminzin, mas os brancos presentes não souberam dizer na tradução se ele falara confirmando ou fazendo uma pergunta.

Enterrem meu coração na curva do rio – Dee Brown

XXXVIII – de O Anticristo

•Janeiro 15, 2008 • 4 Comentários

“Não posso, neste momento, evitar um suspiro. Há dias em que sou visitado por um sentimento mais negro que a mais negra melancolia – o desprezo pelos homens. Que não haja qualquer dúvida sobre o que desprezo, sobre quem desprezo: é o homem de hoje, do qual desgraçadamente sou contemporâneo. O homem de hoje – seu hálito podre me asfixia!… Em relação ao passado, como todos estudiosos, tenho muita tolerância, ou seja, um generoso autocontrole: com uma melancólica precaução atravesso milênios inteiros de mundo-manicômio, chamem isso de “cristianismo”, “fé cristã” ou “Igreja cristã”, como desejarem – tomo o cuidado de não responsabilizar a humanidade por sua demência. Mas um sentimento irrefreável irrompe no momento em que entro nos tempos modernos, nos nossos tempos. Nossa época é mais esclarecida… O que era antigamente apenas doentio agora se tornou indecente – é uma indecência ser cristão hoje em dia. E aqui começa minha repugnância. – Olho à minha volta: não resta sequer uma palavra do que outrora se chamava “verdade”; já não suportamos mais que um padre pronuncie tal palavra. Mesmo um homem com as mais modestas pretensões à integridade precisa saber que um teólogo, um padre, um papa de hoje não apenas se engana quando fala, mas na verdade mente – já não se isenta de sua culpa através da “inocência” ou da “ignorância”. O padre sabe, como todos sabem, que não há qualquer “Deus”, nem “pecado”, nem “salvador” – que o “livre arbítrio” e a “ordem moral do mundo” são mentiras –: a reflexão séria, a profunda auto-superação espiritual impedem que quaisquer homens finjam não saber disso… Todas idéias da Igreja agora estão reconhecidas pelo que são – as piores falsificações existentes, inventadas para depreciar a natureza e todos os valores naturais; o padre é visto como realmente é – como a mais perigosa forma de parasita, como a peçonhenta aranha da criação… – Nós sabemos, nossa consciência agora sabe – exatamente qual era o verdadeiro valor de todas essas sinistras invenções do padre e da Igreja e para que fins serviram, com sua desvalorização da humanidade ao nível da autopoluição, cujo aspecto inspira náusea – os conceitos de “outro mundo”, de “juízo final”, de “imortalidade da alma”, da própria “alma”: não passam de instrumentos de tortura, sistemas de crueldade através dos quais o padre torna-se mestre e mantém-se mestre… Todos sabem disso, mas, mesmo assim, nada mudou. Para onde foi nosso último resquício decência, de auto-respeito se nossos homens de Estado, no geral uma classe de homens não convencionais e profundamente anticristãos em seus atos, agora se denominam cristãos e vão à mesa de comunhão?… Um príncipe à frente de seus regimentos, magnificente enquanto expressão do egoísmo e arrogância de seu povo – e mesmo assim declarando, sem qualquer vergonha, que é um cristão!…(1) Quem, então, o cristianismo nega? O que ele chama “o mundo”? Ser soldado, ser juiz, ser patriota; defender-se a si mesmo; zelar pela sua honra; desejar sua própria vantagem; ser orgulhoso… Toda prática trivial, todo instinto, toda valoração convertida em ato agora é anticristã: que monstro de falsidade o homem moderno precisa ser para se denominar um cristão sem envergonhar-se!”

1 – Nietzsche refere-se ao Kaiser Guilherme II, que subira ao trono da Alemanha em 15 de abril de 1888, cinco meses antes da redação de O Anticristo. (Pietro Nasseti)

Friedrich Nietzsche

DAS TRÊS TRANSFORMAÇÕES

•Dezembro 21, 2007 • 3 Comentários

Três transformações do espírito vos menciono: como o espírito se muda em camelo, e o camelo em leão, e o leão, finalmente, em criança.

Há muitas coisas pesadas para o espírito, para o espírito forte e sólido, respeitável. A força deste espírito está clamando por coisas pesadas, e das mais pesadas.

Há o quer que seja pesado? – pergunta o espírito sólido. E ajoelha-se igual camelo e quer que o carreguem bem. Que há mais pesado, heróis – pergunta o espírito sólido – para eu o ditar sobre mim, para que a minha força se recreie?

Não será rebaixarmo-nos para o nosso orgulho padecer?

Deixar brilhar a nossa loucura para zombarmos da nossa sabedoria?

Ou será separarmo-nos da nossa causa quando ela festeja a sua vitória? Escalar altos montes para tentar o que nos tenta?

Ou será sustentarmo-nos com bolotas e erva do conhecimento e sofrer fome na alma por causa da verdade? Ou será estar enfermo e despedir a consoladores e travar amizade com surdos que nunca ouvem o que queremos?

Ou será nos afundar em água suja quando é a água da verdade, e não afastarmos de nós as frias rãs e os quentes sapos?

Ou será amar os que nos desprezam e estender a mão ao fantasma quando nos quer assustar?

O espírito sólido sobrecarrega-se de todas estas coisas pesadíssimas; e à semelhança do camelo que corre carregado pelo deserto, assim ele corre pelo seu deserto. No deserto mais solitário, porém, se efetua a segunda transformação: o espírito torna-se leão; quer conquistar a liberdade e ser senhor no seu próprio deserto.

Procura então o seu último senhor, quer ser seu inimigo e de seus dias; quer lutar pela vitória com o grande dragão.

Qual é o grande dragão a que o espírito já não quer chamar Deus, nem senhor?

“Tu deves”, assim se chama o grande dragão; mas o espírito do leão diz: “eu quero”.

O “tu deves” está postado no seu caminho, como animal escamoso de áureo fulgor; e em cada uma das suas escamas brilha em douradas letras: “Tu deves!”

Valores milenários cintilam nessas escamas, e o mais poderoso de todos os dragões fala assim: “em mim brilha o valor de todas as coisas”. “Todos os valores foram já criados, e eu sou todos os valores criados. Para o futuro não deve existir o ‘eu quero!’”. Assim falou o dragão.

Meus irmãos, que falta faz o leão no espírito? Não será suficiente a besta de carga que abdica e venera?

Criar valores novos é coisa que o leão ainda não pode; mas criar uma liberdade para a nova criação, isso pode-o o poder do leão. Para criar a liberdade e um santo NÃO, mesmo perante o dever; para isso, meus irmãos, é preciso o leão.

Conquistar o direito de criar novos valores é a mais terrível apropriação aos olhos de um espírito sólido e respeitoso. Para ele isto é uma verdadeira rapina e próprio de um animal rapace.

Como o mais santo, amou em seu tempo o “tu deves” e agora tem de ver a ilusão e arbitrariedade até no mais santo, a fim de conquistar a liberdade à custa do seu amor. É preciso um leão para esse feito…

Dizei-me, porém, irmãos: que poderá a criança fazer que não haja podido fazer o leão? Para que será preciso que o altivo leão se mude em criança?

A criança é a inocência, e o esquecimento, um novo começar, um brinquedo, uma roda que gira sobre si, um movimento, uma santa afirmação.

Sim; para o jogo da criação, meus irmãos, é necessário uma santa afirmação: o espírito quer agora a sua vontade, o que perdeu o mundo quer alcançar o seu mundo. Três transformações do espírito vos mencionei: como o espírito se transformava em camelo, e o camelo em leão, e o leão, finalmente, em criança.

Assim falou Zaratustra”.

Friedrich Nietzsche

Deus?

•Junho 29, 2007 • Deixe um comentário

Mais 3 textos do Eduardo Galeano, extraídos do “Livro dos Abraços”… sensacional.

Teologia/1 

O catecismo me ensinou, na infância, a fazer o bem por interesse e a não fazer o mal por medo. Deus me oferecia castigos e recompensas, me ameaçava com o inferno e prometia o céu; e eu temia e acreditava.

            Passaram-se os anos. Eu já não temo nem creio. E em todo caso – penso -, se mereço ser assado cozido no caldeirão do inferno, condenado ao fogo lento e eterno, que assim seja. Assim me salvarei do purgatório, que está cheio de horríveis turistas de classe média; e no final das contas, se fará justiça.

            Sinceramente: merecer, mereço. Nunca matei ninguém, é verdade, mas por falta de coragem ou de tempo, e não por falta de querer. Não vou à missa aos domingos, nem nos dias de guarda. Cobicei quase todas as mulheres de meus próximos, exceto as feias, e assim violei, pelo menos em intenção, a propriedade privada que Deus pessoalmente sacramentou nas tábuas de Moisés: Não cobiçarás a mulher de teu próximo nem seu touro, nem sue asno… E como se fosse pouco, com premeditação e deslealdade, cometi o ato do amor sem o nobre propósito de reproduzir a mão-de-obra. Sei muito bem que o pecado carnal não é bem visto no céu; mas desconfio que Deus condena o que ignora.

 

Teologia/2

 

            O deus dos cristãos, Deus da minha infância, não faz amor. Talvez o único deus que nunca fez amor, entre todos os deuses de todas as religiões da história humana. Cada vez que penso nisso, sinto pena dele. E então o perdôo por ter sido meu superpai castigador, chefe de polícia do universo, e penso que afinal Deus também foi meu amigo naqueles velhos tempos, quando eu acreditava Nele e acreditava que Ele acreditava em mim. Então preparo a orelha, na hora dos rumores mágicos, entre o pôr-do-sol e o nascer subir da noite, e acho que escuto suas melancólicas confidências.

 

Teologia/3

             

Errata: onde o Antigo testamento diz o que diz, deve dizer aquilo que provavelmente seu principal protagonista me confessou:

            Pena que Adão fosse tão burro. Pena que Eva fosse tão surda. E pena que eu não soube me fazer entender.            Adão e Eva eram os primeiros seres humanos que nasciam da minha mão, e reconheço que tinham certos defeitos de estrutura, construção e acabamento. Eles não estavam preparados para escutar, nem para pensar. E eu… bem, eu talvez não estivesse preparado para falar. Antes de Adão e Eva, nunca tinha falado com ninguém. Eu tinha pronunciado belas frases, como “Faça-se a luz”, mas sempre na solidão. E foi assim que, naquela tarde, quando encontrei Adão e Eva na hora da brisa, não fui muito eloqüente. Não tinha prática.            A primeira coisa que senti foi assombro. Eles acabavam de roubar a fruta da árvore proibida, no centro do Paraíso. Adão tinha posto cara de general eu acaba de entregar a espada e Eva olhava para o chão, como se contasse formigas. Mas os dois estavam incrivelmente jovens e belos e radiantes. Me surpreenderam. Eu os tinha feito; mas não sabia eu o barro podia ser tão luminoso.            Depois, reconheço, senti inveja. Como ninguém pode me dar ordens, ignoro a dignidade da desobediência. Tampouco posso conhecer a ousadia do amor, que exige dois. Em homenagem ao princípio de autoridade, contive a vontade de cumprimentá-los por terem-se feito subitamente sábios em paixões humanas.            Então, vieram os equívocos. Eles entenderam Ueda onde falei de vôo. Acharam que um pecado merece castigo se for original. Eu disse que quem desama peca: entenderam que quem ama peca. Onde anunciei pradaria em festa, entenderam vale de lágrimas. Eu disse que a dor era o sal eu dava gosto à aventura humana: entenderam que eu os estava condenando, ao outorgar-lhes a glória de serem mortais e loucos. Entenderam tudo ao contrário. E acreditaram.            Ultimamente ando com problemas de insônia. Há alguns milênios custo a dormir. E gosto de dormir, gosto muito, porque quando durmo, sonho. Então me transformo em amante ou amanta, me queimo no fogo fugaz dos amores de passagem, sou palhaço, pescador de alto-mar ou cigana adivinhadora da sorte; da árvore proibida devoro até as folhas e bebo e danço até rodar pelo chão…            Quando acordo, estou sozinho. Não tenho com quem brincar, porque os anjos me levam tão a sério, nem tenho a quem desejar. Estou condenado a me desejar. De estrela em estrela ando vagando, aborrecendo-me no universo vazio. Sinto-me muito cansado, me sinto muito sozinho. Eu estou sozinho, eu sou sozinho, sozinho pelo resto da eternidade.

Os ninguéns

•Junho 28, 2007 • Deixe um comentário

As pulgas sonham com comprar um cão, e os ningueéns com deixar a pobreza, que em algum dia mágico a sorte chova de repente, que chova a boa sorte a cântaros; mas a boa sorte não chove ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte, por mais que os ninguéns a chamem e mesmo que a mão esquerda coce, ou se levantem com o pé direito, ou comecem o ano mudando de vassoura.

Os ninguéns: os filhos de ninguém, os donos de nada.

Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos:

Que não são, embora sejam.

Que não falam idiomas, falam dialetos.

Que não praticam religiões, mas sim superstições.

Que não fazem artre, fazem artesanato.

Que não são seres humanos, são recursos humanos.

Que não têm cultura, e sim folclore.

Que não têm cara, têm braços.

Que não têm nome, têm número.

Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local.

Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.

Eduardo Galeano – O livro dos abraços

•Junho 23, 2007 • 2 Comentários

As portas da percepção estão abertas…

Aos civilizados

•Junho 15, 2007 • Deixe um comentário

Em 1855, o cacique Seattle, da tribo Suquamish, do Estado de Washington, enviou esta carta ao presidente dos Estados Unidos (Francis Pierce), depois de o Governo haver dado a entender que pretendia comprar o territórioocupado por aqueles índios. Faz já 147 anos. Mas o desabafo do cacique tem uma incrível atualidade. A carta:

 

 

“O grande chefe de Washington mandou dizer que quer comprar a nossa terra. O grande chefe assegurou-nos também da sua amizade e benevolência. Isto é gentil de sua parte, pois sabemos que ele não necessita da nossa amizade. Nós vamos pensar na sua oferta, pois sabemos que se não o fizermos, o homem branco virá com armas e tomará a nossa terra. O grande chefe de Washington pode acreditar no que o chefe Seattle diz com a mesma certeza com que nossos irmãos brancos podem confiar na mudança das estações do ano. Minha palavra é como as estrelas, elas não empalidecem.

Como pode-se comprar ou vender o céu, o calor da terra? Tal idéia é estranha. Nós não somos donos da pureza do ar ou do brilho da água. Como pode então comprá-los de nós? Decidimos apenas sobre as coisas do nosso tempo. Toda esta terra é sagrada para o meu povo. Cada folha reluzente, todas as praias de areia, cada véu de neblina nas florestas escuras, cada clareira e todos os insetos a zumbir são sagrados nas tradições e na crença do meu povo.

Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele um torrão de terra é igual ao outro. Porque ele é um estranho, que vem de noite e rouba da terra tudo quanto necessita. A terra não é sua irmã, nem sua amiga, e depois de exaurí-la ele vai embora. Deixa para trás o túmulo de seu pai sem remorsos. Rouba a terra de seus filhos, nada respeita. Esquece os antepassados e os direitos dos filhos. Sua ganância empobrece a terra e deixa atrás de si os desertos. Suas cidades são um tormento para os olhos do homem vermelho, mas talvez seja assim por ser o homem vermelho um selvagem que nada compreende.

Não se pode encontrar paz nas cidades do homem branco. Nem lugar onde se possa ouvir o desabrochar da folhagem na primavera ou o zunir das asas dos insetos. Talvez por ser um selvagem que nada entende, o barulho das cidades é terrível para os meus ouvidos. E que espécie de vida é aquela em que o homem não pode ouvir a voz do corvo noturno ou a conversa dos sapos no brejo à noite? Um índio prefere o suave sussurro do vento sobre o espelho d’água e o próprio cheiro do vento, purificado pela chuva do meio-dia e com aroma de pinho. O ar é precioso para o homem vermelho, porque todos os seres vivos respiram o mesmo ar, animais, árvores, homens. Não parece que o homem branco se importe com o ar que respira. Como um moribundo, ele é insensível ao mau cheiro.

Se eu me decidir a aceitar, imporei uma condição: o homem branco deve tratar os animais como se fossem seus irmãos. Sou um selvagem e não compreendo que possa ser de outra forma. Vi milhares de bisões apodrecendo nas pradarias abandonados pelo homem branco que os abatia a tiros disparados do trem. Sou um selvagem e não compreendo como um fumegante cavalo de ferro possa ser mais valioso que um bisão, que nós, peles vermelhas matamos apenas para sustentar a nossa própria vida. O que é o homem sem os animais? Se todos os animais acabassem os homens morreriam de solidão espiritual, porque tudo quanto acontece aos animais pode também afetar os homens. Tudo quanto fere a terra, fere também os filhos da terra.

Os nossos filhos viram os pais humilhados na derrota. Os nossos guerreiros sucumbem sob o peso da vergonha. E depois da derrota passam o tempo em ócio e envenenam seu corpo com alimentos adocicados e bebidas ardentes. Não tem grande importância onde passaremos os nossos últimos dias. Eles não são muitos. Mais algumas horas ou até mesmo alguns invernos e nenhum dos filhos das grandes tribos que viveram nestas terras ou que tem vagueado em pequenos bandos pelos bosques, sobrará para chorar, sobre os túmulos, um povo que um dia foi tão poderoso e cheio de confiança como o nosso.

De uma coisa sabemos, que o homem branco talvez venha a um dia descobrir: o nosso Deus é o mesmo Deus. Julga, talvez, que pode ser dono Dele da mesma maneira como deseja possuir a nossa terra. Mas não pode. Ele é Deus de todos. E quer bem da mesma maneira ao homem vermelho como ao branco. A terra é amada por Ele. Causar dano à terra é demonstrar desprezo pelo Criador. O homem branco também vai desaparecer, talvez mais depressa do que as outras raças. Continua sujando a sua própria cama e há de morrer, uma noite, sufocado nos seus próprios dejetos. Depois de abatido o último bisão e domados todos os cavalos selvagens, quando as matas misteriosas federem à gente, quando as colinas escarpadas se encherem de fios que falam, onde ficarão então os sertões? Terão acabado. E as águias? Terão ido embora. Restará dar adeus à andorinha da torre e à caça; o fim da vida e o começo pela luta pela sobrevivência.

Talvez compreendêssemos com que sonha o homem branco se soubéssemos quais as esperanças transmite a seus filhos nas longas noites de inverno, quais visões do futuro oferecem para que possam ser formados os desejos do dia de amanhã. Mas nós somos selvagens. Os sonhos do homem branco são ocultos para nós. E por serem ocultos temos que escolher o nosso próprio caminho. Se consentirmos na venda é para garantir as reservas que nos prometeste. Lá talvez possamos viver os nossos últimos dias como desejamos. Depois que o último homem vermelho tiver partido e a sua lembrança não passar da sombra de uma nuvem a pairar acima das pradarias, a alma do meu povo continuará a viver nestas florestas e praias, porque nós as amamos como um recém-nascido ama o bater do coração de sua mãe. Se te vendermos a nossa terra, ama-a como nós a amávamos. Protege-a como nós a protegíamos. Nunca esqueça como era a terra quando dela tomou posse. E com toda a sua força, o seu poder, e todo o seu coração, conserva-a para os seus filhos, e ama-a como Deus nos ama a todos. Uma coisa sabemos: o nosso Deus é o mesmo Deus. Esta terra é querida por Ele. Nem mesmo o homem branco pode evitar o nosso destino comum.”

 

 

 

Extraído de:

 

http://www.culturabrasil.org/palavrasdeindios.htm