- Porra, Janjão – gritou o delegado, batendo com o punho na escrivaninha. Era pra trazer o homem pra mim! Vivo, vivo, Janjão!
- Mas, chefe – defendeu-se o outro. Ele era muito fraco. Eu só quis me proteger.
- Que merda, Janjão! O que é que eu vou dizer pra gente de Florianópolis, uh? Que meu guarda matou um homem com um soco?
- Que ele resistiu à prisão…
- Que prisão, CARALHO!? – da boca do delegado saltava cuspe para todos os lados, seu rosto cada vez mais vermelho e enfurecido. Ele era só um suspeito! Não precisava prender, era só trazer até aqui!
Janjão baixou a cabeça, como quem admite a culpa e espera um castigo. Segurava o chapéu, com as duas mãos, na frente da barriga, caracterizando ainda mais sua postura submissa. O delegado Jalus levantou-se e iniciou um nervoso caminhar pelo escritório, batendo com força os pés, e murmurando impropérios ininteligíveis face ao ruidoso baque das botas contra o assoalho. Tentava se concentrar, pensar em algo para contornar a situação. Na janela, por alguns instantes, deixou a vista perder-se na noite, absorto nuns poucos flocos de neve que salpicavam a terra de agosto. Lá fora fazia um inverno como há anos não era visto, e uma trilha de fumaça erguia-se das chaminés de cada casa do vilarejo. Então, o delegado voltou-se novamente para dentro. Tirou um charuto do bolso e o acendeu. Logo após a primeira tragada, perguntou:
- Alguém viu você?
- Como? – redargüiu Janjão. E o delegado repetiu, irritado:
- Alguém te viu? Trazendo o corpo até aqui?
- Bem, não… As ruas são escuras. E a esta hora os colonos todos já estão dormindo. Mas tem o dono do hotel…
- Toni? – interrompeu o delegado Jalus, tragando vorazmente o charuto. Toni não é um problema. É um sujeito fácil de convencer com algum dinheiro… e uma boa ameaça.
Janjão franziu as sobrancelhas:
- No que o senhor está pensando, delegado?
- Cale a boca, idiota – respondeu o outro, irritado. Estou pensando em como vou consertar a merda que você fez.
Janjão baixou a cabeça novamente e ficou esperando. O delegado pensou por mais alguns instantes, tragando nervosamente. Por fim, emergiu da cortina de fumaça que rondava seu rosto, e foi sentar-se à escrivaninha. Abandonando o charuto e amassando-o com força contra o cinzeiro, pigarreou e falou:
- O negócio é o seguinte – e Janjão levantou os olhos para ele – Este Galeguinho era um viajante, estava de passagem, e só faz três semanas que chegou em Chapecó. Não tem nenhum amigo aqui, nem família, conhecidos, nada. Ninguém vai sentir sua falta. Então, vamos enterrar o corpo no matagal. Depois, você vai ter com o dono do hotel. Entregue-lhe esta quantia em dinheiro, e deixe bem claro que, se a história vier à tona, ele vai sofrer as conseqüências. Toni é um cagão, jamais contará nada a ninguém.
- Sim, senhor.
- Depois – continuou o delegado, concebendo na face um risinho satisfeito – depois vamos providenciar que se espalhe um boato de que este Galeguinho era o incendiário que procurávamos. Não temos certeza disto, mas vai parecer óbvio para as pessoas, já que sua chegada coincide com o início dos atentados. Ficará parecendo que, com medo de ser descoberto e capturado, o homem fugiu, sem avisar ninguém ou deixar vestígios. He! He! He! Dois coelhos, uma cajadada: botamos um fim nesta história de incêndios, e não precisaremos dar satisfações para nenhuma autoridade da capital.
- Perfeito, senhor – respondeu o atento Janjão. Mas…
- Sim?
- E se… bem… se os incêndios continuarem?
- Hunf! Duvido muito, disse o delegado. O último incidente foi há quase duas semanas. A estas alturas, o criminoso já deve ter farejado o perigo e fugido para longe daqui. Ninguém sabe o que esses colonos são capazes de fazer se botarem a mão no culpado. Mas coisa boa não é.
Alguns gritos começaram a soar na rua, vozes amontoavam-se gradualmente até adquirirem a proporção de uma turba agitada. Janjão e Jalus acordaram da conversa em que estavam absortos, e só então repararam que a luminosidade da noite havia aumentado. Aos poucos, foram distinguindo as palavras que preenchiam os gritos – eram pedidos de socorro e tentativas de ajuda, e, ao fundo, crepitações cada vez mais ruidosas. Dirigindo-se afobados até a janela, o delegado e seu capanga presenciaram o seguinte espetáculo: a igreja da cidade, toda de madeira, ardia em chamas que engoliam as trevas, lançando labaredas ameaçadoras aos céus e a quem quer que nele estivesse. Pasmos, assistiram às sombras da cidade dançarem na noite ao ritmo do vento, que fazia a grande fogueira bruxulear. Nos olhos arregalados dos dois, no fundo de suas pupilas, refletia-se a imagem do fogo. E o delegado, sem perceber, basbaqueou.
- Mas que raios!?
