Janjão Uxôa bateu com os nós dos dedos na porta número quatro, segundo andar, e ficou aguardando a reposta. Como permanecesse fechada, bateu novamente, desta vez com mais força, e soltou um imperativo gutural para reforçar o aviso:
- Abra a porta! Polícia!
Lá dentro, Osmar Galeguinho hesitava, e o nervosismo impedia um raciocínio adequado – várias idéias ocorriam-lhe ao mesmo tempo, mas não conseguia decidir pelo próprio futuro: por vezes, encarava a janela aberta e imaginava pular, correr pela tarde fria em direção ao matagal e lá se esconder – depois, roubaria um cavalo e fugiria para a Argentina; em outras, caminhava em direção à porta, decidido a abri-la, para encarar de uma vez suas responsabilidades. As batidas se repetiram. Suou frio. Bem, talvez fosse um simples engano. Se fugisse, estaria escancarando sua culpa.
- Abra a porta! Abra a porta!
Galeguinho abriu a porta devagar, deixando apenas o rosto aparecer na fresta, e encenou uma cara de sono.
- Polícia! – disse Janjão Uxôa imediatamente, com brutalidade, empurrando a porta e forçando a entrada no quarto. Quero ter com você.
- À vontade, respondeu o outro, recuando. Mas, sinceramente, não imagino o que possa te trazer aqui com tamanha urgência…
- Escute – interrompeu Janjão, batendo com o indicador em seu peito – não estou para muito papo. Vamos acabar logo isso aqui. Vou te levar para a delegacia, e é melhor ter uma boa história, se quiser livrar o couro. Venha comigo.
- Mas, mas… qual é a acusação?
Uxôa calou e aproximou-se com passos violentos, forçando o outro a recuar até um canto. Era um homem enorme, Janjão Uxôa, com o rosto possuído por uma carranca demoníaca, que sempre estava lá estampada. Talvez por este motivo fosse o capanga preferido do delegado Jalus. E, quando falava, sem brincadeira!, intimidava até os colhões mais avantajados, e fazia muitos molharem as calças apenas com ameaças.
Galeguinho estava assustado, encolhido no chão a um canto, prensado à parede pelo homem enorme. Recebeu uma cusparada na cara quando Janjão pegou-lhe pelos cabelos e falou muito alto e com fúria:
- Não vou repetir! O delegado quer te ver, e você sabe os motivos! Agora levante, como homem, e venha comigo.
Galeguinho estava aterrorizado. Desde que chegara ao vilarejo, ouvira várias histórias sobre o que acontecia naquela prisão. “E se for tudo verdade?” Medo, muito medo de Uxôa, e mais medo ainda da idéia de acabar entre as grades, “preso para sempre, assustado como rato, um brinquedo para satisfazer a insanidade de uns brutos, raios me partam! Só um ladrão de galinhas, só um ladrão de galinhas!”. Uxôa agarrou-lhe o pulso, e começou a escoltá-lo para fora. Ia dizendo que “a vida, neste lugar, não é fácil para gente mal intencionada”, e que “devia ter pensado melhor antes de provocar os incêndios”.
- Incêndios? Como.. Incêndios? Não fui eu. Espere, Uxôa, não tenho nada a ver com os incêndios. N..não fui eu!
- Quieto – advertiu o capanga, puxando Galeguinho com mais força.
E a morte acariciava-lhe o rosto, admirando com olhos de abismo o terror nas idéias desta próxima vítima. Era gelado. Galeguinho sabia que os colonos estavam descontrolados e, quando botassem as mãos no incendiário desconhecido, certamente lhe dariam um trágico destino. Mas não era ele. Ele não! Todo o seu crime foi apenas roubar algumas galinhas, pra matar a fome sem precisar trabalhar. Nada de fogo, não foi sua culpa aquela destruição. Remoeu rapidamente essas imagens, mergulhando em um delírio gradual, e já estavam quase na porta quando a idéia de cair nas garras da turba enlouquecida fez com que o preso saísse completamente de si. Então, ensandecido, num ato de desespero, enfiou a mão livre no coldre do policial, e tentou sacar sua arma. Mas Janjão, muito rápido, virou-se com destreza e acertou-lhe um murro potente no meio da cara.
O corpo de Osmar Galeguinho rebateu pelos móveis do quarto, até cair, jazendo sem vida, próximo à janela, por onde, talvez, caso pulasse, teria alcançado um destino melhor.
